‘Download’ de diploma
O Ensino a Distância (EaD) e o ensino remoto emergencial foram fundamentais durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, entre março de 2020 e o final de 2021, funcionando como a principal alternativa para garantir a continuidade das atividades educacionais quando o distanciamento social fechou as instituições de ensino.
Passado esse período, que marcou a história mundial, o EaD parece que ganhou uma importante fatia no mercado da educação, principalmente quanto ao ensino superior. No ano de 2024, a graduação contabilizou 146.606 matrículas na Região Administrativa de Sorocaba e o EaD foi a modalidade preferida pelos estudantes, sendo que 56,5% das matrículas foram para cursos a distância, enquanto 43,5% optaram pelo presencial.
Em maio de 2025, diante desse cenário, o Ministério da Educação precisou revisar as regras da educação a distância no ensino superior. A decisão de impor limites ao modelo de cursos totalmente remotos e exigir atividades presenciais não atendeu a um mero capricho burocrático. O objetivo maior, antes de tudo, foi uma tentativa de resgatar algo que vinha se perdendo silenciosamente no Brasil: a qualidade da formação universitária.
Nos últimos anos, a expansão vertiginosa do ensino a distância transformou profundamente o sistema educacional brasileiro. Em muitos casos, essa expansão foi apresentada como símbolo de democratização do acesso. E, de fato, o EaD possui méritos inegáveis. Ele permite que estudantes que vivem longe dos grandes centros ou que conciliam trabalho e estudo tenham a oportunidade de cursar o ensino superior até mesmo por um preço mais acessível a muitas famílias de baixa renda .
O problema começa quando a lógica educacional passa a ser substituída pela lógica puramente mercadológica.
Em diversas instituições, o ensino superior a distância deixou de ser uma ferramenta pedagógica complementar para se tornar uma linha de produção de diplomas. Cursos inteiros passaram a ser oferecidos sem qualquer contato real com professores, sem atividades acadêmicas presenciais e, muitas vezes, com avaliações frágeis que pouco medem o conhecimento efetivo do estudante.
O resultado desse modelo é preocupante: diplomas em larga escala e formação cada vez mais superficial.
A nova regulamentação do MEC tenta enfrentar exatamente esse problema ao estabelecer um mínimo de interação acadêmica real. A exigência de atividades presenciais, encontros síncronos e avaliações presenciais busca reintroduzir no processo de aprendizagem aquilo que nenhuma plataforma digital consegue substituir plenamente: a convivência acadêmica.
Frequentar uma universidade não significa apenas assistir a aulas ou consumir conteúdos gravados. O ambiente universitário é um espaço de troca intelectual, debate de ideias, construção coletiva do conhecimento e desenvolvimento de pensamento crítico.
É nos corredores das universidades, nas bibliotecas, nos laboratórios e nas salas de aula que muitas vezes surgem perguntas, dúvidas e reflexões que nenhum vídeo gravado consegue provocar. A formação superior envolve diálogo, confronto de ideias, convivência com diferentes visões de mundo e experiências práticas que só se consolidam no ambiente acadêmico.
Não por acaso, o decreto de 2025 também restringiu o ensino a distância em áreas nas quais a prática é essencial. Cursos como medicina, odontologia, enfermagem e psicologia exigem contato humano, treinamento supervisionado e experiências clínicas que simplesmente não podem ser substituídas por plataformas digitais. Formar profissionais da saúde por meio de um ensino excessivamente virtual seria um risco não apenas acadêmico, mas social.
Outro ponto importante da nova política é a criação da figura do mediador pedagógico e a exigência de avaliações presenciais. Essas medidas respondem a um problema recorrente no EaD brasileiro: a fragilidade dos processos de acompanhamento e verificação da aprendizagem.
Sem mecanismos de controle e interação real, abre-se espaço para fraudes, terceirização de atividades e aprovação automática. O diploma, nesse caso, passa a valer menos, não apenas para quem o obtém, mas para todo o sistema educacional.
Isso não significa demonizar o ensino a distância. O EaD continuará sendo uma ferramenta importante para ampliar o acesso à educação superior no País. Mas é preciso reconhecer um fato elementar: tecnologia educacional não substitui formação acadêmica.
O desafio, portanto, não é escolher entre ensino presencial ou ensino remoto, mas encontrar um equilíbrio responsável entre os dois modelos. Universidades não podem ser transformadas em meras plataformas de conteúdo. O ensino superior precisa formar profissionais qualificados, cidadãos críticos e pessoas capazes de lidar com problemas complexos da sociedade.
Se a universidade deixar de ser um espaço de convivência intelectual e se transformar apenas em um aplicativo de aulas gravadas, o Brasil poderá até aumentar o número de diplomas, mas diminuirá drasticamente a qualidade da formação, comprometendo o futuro intelectual e produtivo do Brasil.
E uma nação não se desenvolve com estatísticas educacionais infladas. Desenvolve-se com conhecimento real.