Curioso paradoxo estatístico

Por Cruzeiro do Sul

O Brasil vive um curioso paradoxo estatístico que, à primeira vista, parece virtuoso, mas que, sob análise mais detalhada, revela fragilidades estruturais profundas. De um lado, o governo federal celebra sucessivos recordes na criação de empregos com carteira assinada, com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). De outro, os desembolsos com o seguro-desemprego crescem pelo quinto ano consecutivo, pressionando os cofres públicos e expondo uma engrenagem trabalhista que gira, mas não necessariamente avança.

A taxa de desemprego caiu para 5,2%, que é o menor nível de toda a série histórica. Mas os gastos com seguro-desemprego não param de subir e bater recordes. Nos 12 meses que terminaram em novembro, os desembolsos chegaram a mais de R$ 57 bilhões.

Trata-se de uma cifra expressiva, que rivaliza com orçamentos inteiros de ministérios e supera investimentos em áreas estratégicas. Se o mercado de trabalho está aquecido como se apregoa, por que cresce, ano após ano, o número de brasileiros recorrendo ao benefício?

A explicação não está na superfície. O Caged contabiliza admissões e desligamentos formais. Quando o saldo é positivo, o governo comemora. Mas o que pouco se discute é a rotatividade. O Brasil mantém uma das mais altas taxas mundiais de turnover, indicador de RH que mede a taxa de rotatividade de funcionários.

Empregos são criados e destruídos com enorme velocidade. Muitos trabalhadores ingressam no mercado formal apenas para serem dispensados poucos meses depois, habilitando-se ao seguro-desemprego. O resultado é um ciclo perverso: contrata-se muito, demite-se muito, e o Estado paga a conta.

Há ainda outro fator: a qualidade das vagas. Crescem os empregos de menor remuneração, com alta vulnerabilidade e baixa estabilidade. Setores como serviços e comércio, fortemente dependentes do consumo e sensíveis a oscilações econômicas, lideram as admissões — e também os desligamentos. A formalização, nesse contexto, não significa necessariamente solidez.

Qual é, então, a responsabilidade do atual governo? É preciso separar heranças estruturais de escolhas políticas. A alta rotatividade é um problema histórico. Contudo, cabe ao governo formular políticas que incentivem vínculos mais duradouros, qualificação profissional consistente e ambiente de negócios estável. A política econômica dos últimos anos, marcada por expansão de gastos públicos, elevação da carga tributária indireta e insegurança regulatória em alguns setores, contribui para um cenário de incerteza que desestimula investimentos de longo prazo. Empresas contratam, mas hesitam em manter.

Além disso, o aumento real do salário mínimo, embora socialmente defensável, pressiona custos empresariais em segmentos de baixa margem. Em uma economia que cresce de forma anêmica, esse descompasso pode acelerar demissões. Some-se a isso o crédito mais restrito e juros historicamente elevados — realidade que só recentemente começou a ser revertida — e tem-se o retrato de um mercado de trabalho volátil.

O seguro-desemprego, vale lembrar, é um instrumento essencial de proteção social. Não se trata de questionar sua existência, mas de indagar por que ele se tornou um indicador indireto da fragilidade do emprego formal brasileiro. Quando o gasto com o benefício cresce de maneira persistente, algo não vai bem na base da pirâmide produtiva.

O que acontece de verdade no Brasil é menos glamouroso do que sugerem os discursos oficiais. Não estamos diante de um “boom” sustentável de emprego, mas de um mercado de trabalho marcado por entradas e saídas constantes, por vínculos curtos e por baixa produtividade. A estatística do saldo positivo esconde a instabilidade estrutural.

Enquanto o debate público se concentra no número líquido de vagas, ignora-se a necessidade de reformas que enfrentem a raiz do problema: qualificação profissional alinhada às demandas tecnológicas, simplificação tributária efetiva, segurança jurídica e estímulo ao investimento produtivo. Sem isso, o país continuará comemorando admissões ao mesmo tempo em que amplia despesas com demissões.

O paradoxo não é contábil; é estrutural. O Brasil cria empregos, mas não consegue sustentá-los. E enquanto essa engrenagem não for ajustada, o seguro-desemprego seguirá crescendo — não como símbolo de proteção social apenas, mas como termômetro da fragilidade do nosso modelo econômico.