Feliz 2026, de fato!
A cada início de ano, o Brasil revive um ritual que vai além da festa, da música e do colorido das ruas. O Carnaval, que culturalmente representa alegria e catarse coletiva, transformou-se também em uma espécie de marco simbólico da retomada da vida nacional. Repete-se, quase como um mantra informal, a ideia de que “o ano só começa depois do Carnaval”. Embora dita em tom descontraído, essa frase revela um traço profundo da cultura política, econômica e social do País: a procrastinação institucionalizada e a tolerância histórica com a lentidão estrutural.
A Quarta-feira de Cinzas, nesse contexto, assume contornos que extrapolam o calendário religioso. Ela passa a ser, metaforicamente, o verdadeiro Réveillon brasileiro — o momento em que empresas retomam projetos, órgãos públicos aceleram pautas engavetadas e o debate político abandona a inércia do recesso informal. Não se trata apenas de uma questão de agenda, mas de mentalidade coletiva. Enquanto na maioria das nações o planejamento anual inicia em janeiro com vigor e metas claras, no Brasil ainda se aceita com naturalidade que o primeiro bimestre seja um período de espera, como se o País inteiro estivesse em suspensão.
Essa cultura do adiamento cobra um preço alto, especialmente em 2026, um ano que se anuncia complexo e carregado de responsabilidades. Trata-se de um período eleitoral, com todas as tensões e disputas que naturalmente emergem; é também ano de Copa do Mundo, evento que tradicionalmente paralisa atenções e interfere no ritmo produtivo; e ainda será marcado por um calendário generoso de feriados prolongados. Somados, esses fatores criam um ambiente propício à dispersão de prioridades, à diluição de debates relevantes e à postergação de decisões que exigem urgência e seriedade.
O problema não reside no Carnaval em si — manifestação legítima da identidade cultural brasileira e patrimônio imaterial de valor inestimável —, mas na postura que o cerca. O País não pode se dar ao luxo de funcionar em marcha lenta durante meses, sobretudo quando enfrenta desafios econômicos severos. A desaceleração do crescimento, a insegurança fiscal, a inflação que corrói o poder de compra e a instabilidade no mercado de trabalho exigem respostas rápidas, planejamento consistente e execução eficiente. A ideia de que tudo pode esperar até depois da festa é incompatível com a realidade de uma nação que busca competitividade global.
Além do aspecto econômico, há o componente político. O Brasil atravessa um período de polarização intensa, no qual o debate público frequentemente se desloca do campo das propostas para o terreno das paixões ideológicas. A postergação de discussões estruturais agrava esse cenário, pois permite que narrativas superficiais ganhem espaço enquanto temas essenciais — como reforma administrativa, responsabilidade fiscal, qualidade da educação e eficiência dos serviços públicos — permanecem em segundo plano. A Quarta-feira de Cinzas, portanto, não deveria simbolizar apenas o fim da folia, mas o início de um ciclo de maturidade cívica.
Outro fator preocupante é a recorrente percepção de corrupção e conflitos de interesse que paira sobre diferentes esferas do poder. Quando a sociedade aceita atrasos sistemáticos como algo normal, cria-se um terreno fértil para a falta de transparência e para decisões tomadas sem o devido escrutínio público. A inércia coletiva, ainda que involuntária, acaba por favorecer práticas que prosperam justamente na ausência de vigilância contínua. Um país que “só começa depois” transmite a mensagem de que há sempre um intervalo tolerável para a improdutividade e, por consequência, para a irresponsabilidade.
Some-se a isso a crítica recorrente aos gastos públicos elevados que não se convertem, na mesma proporção, em melhorias perceptíveis no bem-estar da população. A sensação de que se arrecada muito e se entrega pouco intensifica o ceticismo social. Quando o cidadão observa um Estado que movimenta cifras bilionárias sem resultados concretos e, simultaneamente, convive com a ideia cultural de que o ano útil começa apenas após uma festividade, consolida-se um sentimento de desalinhamento entre esforço e retorno, entre expectativa e realidade.
Romper com esse ciclo não significa abolir tradições nem diminuir a importância do Carnaval, mas ressignificar o período que o antecede. O Brasil precisa abandonar a noção de que janeiro é um mês descartável e fevereiro um prelúdio improdutivo. Em um mundo interconectado e altamente competitivo, dois meses representam uma fatia significativa do calendário econômico e político. Planejamento, produtividade e responsabilidade institucional não podem depender do fim de uma festa, por mais grandiosa que ela seja.
A Quarta-feira de Cinzas pode, sim, ser um ponto de virada. Não por encerrar a folia, mas por simbolizar o compromisso de que o País não pode mais se permitir começar tarde. Em um ano decisivo como 2026, a nação precisará provar que maturidade cívica não é incompatível com alegria cultural, que responsabilidade fiscal não exclui celebração e que produtividade não precisa aguardar o último acorde do samba. O verdadeiro desafio brasileiro não é quando o ano começa no calendário, mas quando ele passa, de fato, a funcionar na prática.