Carnaval ou bons serviços?

Por Cruzeiro do Sul

Todos os anos, quando o calendário se aproxima do Carnaval, repete-se no Brasil um debate que deveria ser menos passional e mais racional: é legítimo que municípios com orçamentos apertados invistam dinheiro público na realização da Festa do Momo enquanto serviços essenciais operam no limite da precariedade? A pergunta não se dirige à festa em si — manifestação cultural histórica, legítima e profundamente enraizada na identidade nacional —, mas sim à escolha política de priorizar recursos escassos para eventos festivos quando a realidade cotidiana do cidadão aponta para carências estruturais gritantes.

O Carnaval é, sem dúvida, patrimônio cultural, fonte de lazer, turismo e até geração de renda. Ignorar esse aspecto seria simplificar em demasia uma discussão que exige maturidade. Contudo, reconhecer o valor cultural da festa não significa aceitar, de maneira automática e irrefletida, que cofres públicos debilitados sejam utilizados para financiá-la. Há uma diferença substancial entre apoiar a cultura e utilizar o dinheiro do contribuinte como instrumento de promoção política disfarçada de incentivo cultural.

Em inúmeras cidades brasileiras, a realidade é conhecida e pouco contestada: postos de saúde sem médicos suficientes, filas intermináveis para exames básicos, escolas carecendo de manutenção e infraestrutura, ruas esburacadas, iluminação pública deficiente e coleta de lixo irregular. Não se trata de exceções isoladas, mas de um padrão recorrente que revela uma máquina pública inchada, burocrática e, muitas vezes, ineficiente. Nesse contexto, a destinação de verbas para desfiles, palcos, shows e estruturas temporárias soa, para grande parte da população, como um descompasso entre prioridade administrativa e necessidade social.

O problema não reside no direito de festejar, mas na origem do recurso. Quando o financiamento do Carnaval parte majoritariamente da iniciativa privada ou de parcerias transparentes que não comprometam áreas essenciais, a discussão assume outro tom. O impasse surge quando a conta é paga com o mesmo dinheiro que falta para medicamentos, merenda escolar ou manutenção de vias públicas. O cidadão que dança ao som do trio elétrico é o mesmo que, dias depois, enfrentará o transporte público precário, o atendimento médico demorado e a insegurança urbana. A euforia momentânea não elimina a frustração estrutural.

Há ainda um componente político que não pode ser ignorado. Eventos de grande visibilidade oferecem retorno imediato de imagem para gestores públicos. Palcos iluminados rendem fotos, discursos e aplausos; obras de saneamento básico, por outro lado, raramente geram manchetes festivas. Essa lógica de curto prazo distorce o verdadeiro papel da administração pública, que deveria se pautar por planejamento de longo alcance e responsabilidade fiscal, não por calendários eleitorais ou busca de popularidade instantânea.

Defensores do investimento público no Carnaval frequentemente argumentam que a festa movimenta a economia local, gera empregos temporários e atrai turistas. O argumento possui mérito, mas exige cautela. O impacto econômico positivo não pode ser analisado de forma isolada, sem considerar o custo de oportunidade — ou seja, aquilo que deixa de ser feito quando se escolhe aplicar recursos em determinada área. Uma cidade que investe milhares ou milhões em poucos dias de festa precisa demonstrar, com transparência e dados concretos, que esse investimento não compromete serviços permanentes e indispensáveis.

O ponto central da discussão, portanto, não é cultural, mas orçamentário e ético. O gestor público não administra dinheiro próprio, e sim recursos arrecadados compulsoriamente da sociedade. Cada real gasto carrega consigo a expectativa de retorno em forma de qualidade de vida. Quando hospitais carecem de insumos e escolas necessitam de reformas urgentes, a aplicação de verbas em festividades transmite a sensação de que o supérfluo se sobrepõe ao essencial.

Manter o Carnaval como tradição popular é desejável e legítimo. O que se questiona é a dependência do erário para viabilizar aquilo que poderia — e talvez devesse — buscar modelos alternativos de financiamento. Incentivos fiscais bem estruturados, parcerias com empresas e organização comunitária são caminhos possíveis que preservam a festa sem sacrificar o orçamento destinado à infraestrutura urbana e aos serviços básicos.

No fim das contas, a Quarta-feira de Cinzas funciona como metáfora perfeita da realidade brasileira: passado o brilho dos desfiles, resta ao cidadão encarar novamente os problemas que jamais foram embora. O desafio do poder público é compreender que alegria coletiva não pode servir de cortina de fumaça para a ineficiência administrativa. A verdadeira celebração social não está apenas no batuque ou no espetáculo visual, mas na garantia de saúde digna, educação de qualidade e cidades bem cuidadas. Sem isso, o confete se dissolve rapidamente, enquanto o serviço público precário permanece.