Desaprovação em alta

Por Cruzeiro do Sul

Ao escancarar a desaprovação do governo Lula e do próprio presidente, a mais recente pesquisa divulgada pelo PoderData surge menos como uma surpresa e mais como a confirmação de um desgaste que vinha se consolidando. Em pleno início de um ano eleitoral — quando governos tradicionalmente colhem dividendos de seus feitos, o resultado expõe um dado incômodo: há um descolamento claro e crescente entre o discurso oficial e a percepção concreta do brasileiro

Segundo o levantamento realizado entre os dias 24 e 26 de janeiro de 2026 com 2.500 pessoas em todas as regiões do País, 57% dos brasileiros desaprovam o desempenho pessoal de Lula, enquanto apenas 34% aprovam sua atuação e 9% não souberam responder.

No plano institucional, a desaprovação de seu governo também supera amplamente a aprovação: 53% desaprovam, frente a 41% que o aprovam, com 6% de indecisos. Esses índices configuram não apenas uma maioria crítica ao governo, mas também uma tendência de desgaste que vem se acentuando desde o início do atual mandato.

Pesquisas de opinião são muito mais do que simples retratos instantâneos de popularidade: são termômetros do humor social e indicadores do grau de confiança da sociedade em seus governantes. E o que a pesquisa PoderData revela é uma divergência entre narrativas e experiência cotidiana. Em um momento em que a economia ainda não apresenta sinais claros de recuperação robusta, quando problemas estruturais em áreas como segurança pública e serviços essenciais persistem, o discurso oficial baseado em retrospectivas históricas e promessas longínquas parece menos eficaz. O brasileiro comum, que vive o impacto de políticas públicas na própria casa, percebe esse hiato e e ele se reflete nos percentuais de desaprovação.

A diferença entre a avaliação pessoal de Lula e a avaliação do seu governo também é sintomática. Que o presidente tenha índices de rejeição mais altos do que a sua própria administração aponta para uma personificação negativa das responsabilidades. A política, para a maioria da população, está encarnada em um líder cuja imagem já não mobiliza confiança, inclusive entre parcelas tradicionais de sua base. Essa dissociação entre pessoa e instituição governa em um ambiente político marcado por expectativas frustradas e comunicação discursiva que muitas vezes não se traduz em resultados concretos.

Algumas explicações estruturais merecem destaque. Primeiro, a fadiga narrativa: a sociedade brasileira tem exibido uma crescente intolerância a discursos que repetem promessas de transformação sem que haja correspondentes efeitos percebidos no cotidiano. Eleitores mais informados e politicamente ativos tendem a punir governos que apostam mais em falácias do que em resultados mensuráveis. Segundo, a percepção de estagnação econômica — ainda que seletiva — impacta diretamente a popularidade de governos, especialmente em anos eleitorais, quando os cidadãos fazem balanços mais críticos das condições de vida e comparações com expectativas anteriores.

A pesquisa também captura outra dimensão relevante: a percepção pública sobre temas como corrupção, que segundo dados do mesmo levantamento indica que 49% perceberam aumento de corrupção no governo, enquanto apenas 18% acreditam na redução dessas práticas. Esse sentimento amplia a sensação de desgaste, alimentando discursos pessimistas e corroendo a confiança institucional.

Adicionalmente, o ano eleitoral amplifica os efeitos desses números. Diferentemente de pesquisas de intenção de voto, que mapeiam preferências em futuros embates eleitorais, a pesquisa de avaliação de governo funciona como um termômetro de expectativas sociais, estimulando a busca por alternativas. É crucial reconhecer que a desaprovação hoje registrada não é apenas um fenômeno estatístico temporário, mas um sinal político claro: o eleitorado está mais exigente, menos tolerante a discrepâncias entre promessa e realidade e, sobretudo, menos disposto a aceitar discursos que parecem desconectados das práticas governamentais cotidianas. Ignorar essa mensagem seria subestimar a maturidade do eleitor brasileiro.

Governos bem-sucedidos são aqueles capazes de alinhar discurso e entrega, traduzindo suas políticas em efeitos tangíveis na vida das pessoas. A persistência da retórica sem a devida correspondência em resultados palpáveis tende a acentuar a crise de legitimidade e abrir espaço para narrativas alternativas que capitalizam a insatisfação social.

No início de um ano eleitoral que se anuncia acirrado, estes dados exigem mais do que análises reducionistas: exigem uma reflexão profunda sobre o Estado da política no Brasil, sobre a capacidade de seus líderes em dialogar efetivamente com as demandas reais da população e, sobretudo, sobre a necessidade de traduzir promessas em respostas concretas. Caso contrário, o que se vê hoje nos números poderá se refletir, em breve, nas urnas como consequência de um governo que ainda não conseguiu convencer grande parte dos brasileiros de que suas palavras correspondem, de fato, a mudanças no dia a dia de cada cidadão.