Retrato do fracasso social brasileiro

Por Cruzeiro do Sul

O crescimento contínuo da população em situação de rua no Brasil deixou de ser um fenômeno conjuntural para se consolidar como um dos sinais mais evidentes do esgotamento das políticas sociais do País. Os números mais recentes são contundentes: mais de 365 mil brasileiros vivem hoje sem teto, sem endereço e, muitas vezes, sem acesso pleno aos direitos mais básicos. Trata-se de um contingente maior do que a população de centenas de municípios brasileiros, muitas vezes invisível no cotidiano, mas gritante nas estatísticas.

O dado, levantado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais a partir do Cadastro Único, revela não apenas um problema social, mas uma falha estrutural do Estado. A rua deixou de ser exceção para se tornar destino possível — e recorrente — para uma parcela crescente da população. É um processo que se intensificou após a pandemia, mas que encontra raízes profundas na precarização do trabalho, no encarecimento da moradia, no custo proibitivo da vida urbana e na incapacidade governamental de articular políticas públicas integradas e eficazes.

De 2020 a 2021, o número de pessoas em situação de rua havia caído, passando de 194.824 para 158.191 pessoas. Mas, agora, voltou a subir e vem crescendo de forma contínua desde então. O governo Lula se orgulha de gastar bilhões de reais por ano em programas sociais, mas parece que esse dinheiro não está chegando, de fato, a quem realmente precisa.

A concentração desse drama no Sudeste, especialmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais floresce justamente onde o custo de vida é mais alto, onde o mercado imobiliário é mais excludente e onde o emprego formal se torna cada vez mais inacessível para quem perde o vínculo produtivo. A rua, nesses centros, passa a ser a última etapa de um processo silencioso de exclusão.

É ilusório atribuir esse crescimento apenas ao aprimoramento dos registros do CadÚnico. Embora o avanço no mapeamento seja relevante, ele não cria pessoas em situação de rua, mas revela uma realidade que já estava posta. O que falta não é diagnóstico, mas ação. E ação estruturante. Moradia, trabalho e educação seguem sendo promessas repetidas em discursos oficiais, mas raramente transformadas em políticas consistentes, contínuas e avaliáveis.

O depoimento de quem vive essa realidade escancara outra face do problema: o colapso do orçamento doméstico. Aluguel, alimentação, contas básicas e medicamentos competem entre si em uma equação impossível de fechar. Quando o custo da sobrevivência supera a renda, o resultado é previsível. Não se trata de escolha individual, mas de empurrão sistêmico. A rua não é opção; é consequência.

Some-se a isso o impacto da transformação tecnológica no mercado de trabalho, que amplia a exclusão daqueles sem acesso à qualificação e à requalificação profissional. O País assiste à modernização de processos produtivos sem oferecer pontes para que milhões de trabalhadores atravessem essa transição. O resultado é uma massa crescente de pessoas descartadas economicamente, tratadas como problema urbano e não como cidadãos.

A resposta do poder público, quando existe, ainda é fragmentada, emergencial e muitas vezes orientada mais pela lógica do controle do espaço urbano do que pela promoção da dignidade humana. Criam-se abrigos temporários, ações pontuais e programas desarticulados, enquanto o problema se acumula. Falta coordenação entre União, estados e municípios. Falta planejamento de longo prazo. Falta coragem política para enfrentar interesses e romper a lógica da exclusão.

Tratar a população em situação de rua como cidadã exige abandonar soluções cosméticas e enfrentar o núcleo do problema: renda, moradia e trabalho. Enquanto isso não ocorrer, o asfalto continuará sendo o colchão de milhares de brasileiros, e a rua seguirá como o retrato mais cruel da incapacidade atual do Brasil de garantir dignidade mínima aos seus próprios cidadãos.

O crescimento da população em situação de rua não é uma fatalidade histórica. É uma escolha política feita todos os dias pela omissão. E toda omissão, neste caso, tem endereço certo: o chão frio das cidades brasileiras.