2026 promete ferver
O ano de 2026 começou há 24 dias e o Brasil já dá sinais inequívocos de que atravessará um período de alta temperatura política, econômica e institucional. Trata-se de um ano que reúne dois ingredientes historicamente inflamáveis no País: eleições gerais e Copa do Mundo. Separados, já exigem cautela. Juntos, costumam transformar o ambiente nacional em terreno fértil para excessos, ilusões coletivas e decisões públicas de curto alcance. E, como se não bastasse, o ano já começa marcado por episódios que expõem fragilidades profundas do sistema econômico e regulatório brasileiro.
Os primeiros movimentos de 2026 revelam um Brasil tensionado. A economia segue patinando em ritmo modesto, sufocada por uma das mais altas taxas de juros do mundo, que penaliza o crédito, inibe investimentos produtivos e mantém famílias e empresas em permanente estado de contenção. O custo do dinheiro elevado tornou-se, na prática, um imposto invisível que recai sobretudo sobre quem produz, empreende e consome, enquanto o Estado permanece incapaz de ajustar seus próprios gastos com a mesma disciplina que exige da sociedade.
Nesse cenário já adverso, o episódio envolvendo o Banco Master atua como um verdadeiro sinal de alerta — ou, mais precisamente, como uma bomba lançada no centro de um sistema financeiro que deveria inspirar confiança. O caso expõe falhas de supervisão, riscos mal dimensionados e um ambiente em que operações de alto risco convivem perigosamente com a sensação de normalidade. Não se trata apenas de um problema isolado, mas de um retrato preocupante da tolerância institucional com práticas que, quando estouram, cobram a conta do mercado, dos investidores e, em última instância, da sociedade.
O impacto simbólico do caso é ainda mais grave porque ocorre em um momento de extrema sensibilidade econômica. Em um país com crédito caro, endividamento elevado e crescimento anêmico, qualquer abalo na confiança do sistema financeiro funciona como combustível adicional para a instabilidade. A lembrança de crises passadas deveria bastar para reforçar a necessidade de vigilância rigorosa, transparência e ação preventiva — não de explicações tardias, notas defensivas ou tentativas de minimizar danos evidentes.
Enquanto isso, o discurso oficial tenta sustentar uma narrativa de normalidade, apoiada em indicadores pontuais e recortes convenientes da realidade. Mas o cotidiano insiste em desmenti-la. O brasileiro continua trabalhando muito para pagar impostos, tarifas, juros e serviços caros e recebendo pouco em troca. Em ano eleitoral, essa equação tende a se deteriorar ainda mais, pois a tentação de expandir despesas, adiar correções e maquiar desequilíbrios fiscais cresce na mesma proporção do apetite por votos.
O ambiente institucional também contribui para elevar a temperatura. O protagonismo crescente do judiciário, especialmente em temas politicamente sensíveis e economicamente relevantes, consolidou-se como um dos traços mais marcantes do período recente. Decisões sigilosas, intervenções amplas e interpretações elásticas da lei alimentam desconfiança, polarização e a percepção de que exceções começam a se normalizar. Em ano eleitoral, esse quadro se agrava: cada decisão institucional passa a ser analisada não apenas pelo mérito jurídico, mas pelo impacto político e econômico que produz.
A política, por sua vez, já opera em modo de campanha permanente. O governo busca preservar capital político e defender narrativas; a oposição tenta capturar o descontentamento difuso de uma sociedade cansada de promessas não cumpridas. Programas sociais, escolhas orçamentárias e até a condução da política econômica passam a carregar leitura eleitoral inevitável. O debate público corre o risco de se empobrecer, trocando projetos estruturantes por slogans, atalhos retóricos e soluções fáceis para problemas complexos, exatamente o terreno onde crises financeiras costumam germinar.
É nesse contexto que a Copa do Mundo surge como promessa de alívio emocional. O futebol, paixão nacional legítima, costuma funcionar como válvula de escape em períodos de tensão. Mas a experiência brasileira recomenda cautela. A euforia esportiva frequentemente serve como distração conveniente para governos e lideranças que preferem o aplauso momentâneo ao enfrentamento das questões estruturais. Gols não reduzem juros, não fortalecem a regulação financeira, não equilibram contas públicas nem corrigem falhas de fiscalização.
O Brasil entra em 2026 em estado de pré-ebulição. Economia frágil, política contaminada pela lógica eleitoral, instituições sob pressão constante e episódios como o do Banco Master formam um conjunto explosivo. O risco maior não está apenas na soma desses fatores, mas na persistente incapacidade do País de agir preventivamente, aprender com sinais de alerta e tratar crises potenciais antes que se tornem fatos consumados.
Não faltará emoção ao longo do ano. Faltará, ao que tudo indica, sobriedade. Se o calendário eleitoral continuar ditando decisões econômicas, se o futebol for usado como anestésico coletivo e se escândalos financeiros forem tratados como acidentes isolados, a fervura não será apenas metafórica: será crise concreta. O Brasil pode até comemorar gols. Mas, se insistir em brincar com riscos sistêmicos e tratar o futuro como espetáculo, corre o sério risco de perder, mais uma vez, o jogo que realmente importa: o da estabilidade, da confiança e do desenvolvimento sustentável.