O brasileiro trabalha, o Estado arrecada, o País não anda

Por Cruzeiro do Sul

Todo início de ano escancara uma contradição que o Brasil insiste em normalizar: o cidadão trabalha cada vez mais, paga cada vez mais impostos, mas recebe cada vez menos em troca. Janeiro, fevereiro e março não são apenas a abertura do calendário; tornaram-se o período mais cruel do ano para as famílias brasileiras, uma espécie de teste de resistência imposto pelo próprio Estado.

É nesse momento que se concentram algumas das despesas mais pesadas do orçamento doméstico. IPVA, IPTU, taxas municipais, reajustes de serviços públicos, além dos custos da volta às aulas — material escolar, uniforme, transporte, matrícula, mensalidades. Tudo isso chega de uma vez, sem trégua, enquanto salários seguem estagnados e o crédito permanece inacessível para a maioria da população.

Estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) mostra que o brasileiro médio trabalha quase cinco meses por ano (cerca de 149 dias) para pagar impostos, ou seja, só a partir de junho o dinheiro começa a ser para o próprio sustento, mostrando uma alta carga tributária que inclui renda, patrimônio e consumo, com retorno ineficiente em serviços públicos.

O problema não está apenas no volume de despesas, mas no contexto em que elas se impõem. O Brasil figura entre os países com as maiores cargas tributárias do mundo em relação à renda da população, especialmente quando se observa a tributação sobre consumo e serviços essenciais. Paga-se imposto em praticamente tudo: na comida, na conta de luz, no transporte, no gás de cozinha. O cidadão é tributado antes mesmo de receber o salário, e novamente quando tenta usá-lo para sobreviver.

A esse peso se soma outro fator estrutural: as taxas de juros mais altas do planeta. Mesmo após sucessivos discursos oficiais prometendo alívio, o custo do dinheiro segue proibitivo. Parcelar despesas básicas virou sinônimo de endividamento crônico. Financiar educação, trocar um veículo, reorganizar o orçamento ou simplesmente atravessar o primeiro trimestre do ano se tornou um exercício de sobrevivência financeira.

O resultado é conhecido e recorrente: inadimplência em alta, consumo reprimido, famílias sufocadas e empresas cautelosas. O brasileiro trabalha muito, produz dentro de suas limitações, mas vê seu esforço ser drenado por um sistema que arrecada com eficiência, porém devolve com precariedade. A conta fecha para o Estado, nunca para o cidadão.

O discurso oficial insiste em apontar arrecadação recorde como sinal de sucesso. Mas arrecadar mais não é sinônimo de governar melhor. Ao contrário: quando a arrecadação cresce enquanto a economia patina, a renda não avança e o custo de vida explode, o que se revela é um modelo exaustivo, sustentado à base de impostos elevados e crédito caro.

Janeiro deveria ser mês de planejamento e esperança. No Brasil, tornou-se o mês da ansiedade e do aperto, assim como fevereiro, março, abril, maio e junho. Famílias fazem malabarismos para pagar impostos que não escolhem, enquanto lidam com escolas que carecem de estrutura, ruas esburacadas, serviços de saúde sobrecarregados e uma sensação difusa de que o dinheiro público se perde antes de chegar a quem paga por ele.

Não é razoável que um País que tributa tanto entregue tão pouco. Não é aceitável que o esforço do contribuinte sirva mais para sustentar a máquina pública do que para impulsionar desenvolvimento, infraestrutura e oportunidades. O brasileiro não se recusa a pagar impostos; ele se recusa, com razão, a pagar caro por um Estado que não funciona à altura do que cobra.

Enquanto isso, o País segue andando em círculos. Trabalha-se para pagar impostos, paga-se imposto para manter o Estado, e o Estado, por sua vez, não cria as condições necessárias para que o trabalho renda mais e melhor. É um ciclo vicioso que se renova a cada início de ano, com boletos, carnês e taxas que chegam antes mesmo do primeiro alívio financeiro.

Romper esse padrão exige mais do que retórica. Exige revisão séria da carga tributária, responsabilidade fiscal real, redução estrutural dos juros e, sobretudo, respeito ao contribuinte. Até lá, o Brasil continuará sendo o país onde o cidadão trabalha muito, o Estado arrecada muito e o país, simplesmente, não anda.