A inflação que não aparece no índice
Quando se fala em inflação no Brasil, o debate público costuma se apoiar quase exclusivamente nos números oficiais. Índices são celebrados quando recuam alguns décimos e rapidamente apresentados como prova de normalidade econômica. O problema é que essa leitura confortável ignora uma parte essencial da realidade. Há uma inflação que não aparece nos gráficos, não ocupa o centro das manchetes e, ainda assim, pesa diariamente sobre a vida do brasileiro. É a inflação invisível, difusa, persistente e profundamente corrosiva.
Ela se manifesta na redução silenciosa das embalagens, na perda de qualidade de produtos e serviços, no aumento contínuo de tarifas públicas e privadas, nas mensalidades de planos de saúde, nas taxas bancárias e administrativas que se multiplicam sem alarde. Não é uma inflação concentrada em um único item, mas espalhada por toda a economia, o que a torna mais difícil de medir e, ao mesmo tempo, mais fácil de ser ignorada pelo discurso oficial.
No Brasil, esse fenômeno se agrava de forma quase crônica, com uma das maiores taxas de juros do mundo. Mesmo quando os indicadores formais apontam desaceleração inflacionária, o custo do crédito permanece elevado, o financiamento segue restritivo e o dinheiro continua caro. No Brasil, não basta pagar mais pelos bens e serviços: paga-se caro também para parcelar, financiar ou simplesmente organizar o orçamento doméstico.
A combinação entre inflação invisível e juros elevados cria um círculo vicioso. O consumidor perde poder de compra sem conseguir identificar exatamente onde perdeu. A renda se dissolve aos poucos, diluída em pequenos aumentos distribuídos por toda parte. Ao mesmo tempo, o crédito — que poderia funcionar como instrumento de reorganização financeira — transforma-se em armadilha, empurrando famílias para o endividamento prolongado e para a inadimplência silenciosa.
Para as empresas, especialmente as pequenas e médias, o cenário é igualmente sufocante. Custos financeiros elevados, margens comprimidas e dificuldade de acesso a capital reduzem a capacidade de investir, inovar e gerar empregos. A inflação invisível não apenas encarece insumos; ela compromete o planejamento, mina a previsibilidade e reforça a percepção de que operar no Brasil exige esforço excessivo para resultados cada vez mais modestos.
Há ainda um efeito institucional relevante. Quando o debate econômico se limita aos índices oficiais, perde-se a capacidade de enxergar a economia real. Políticas públicas passam a ser avaliadas pelo desempenho estatístico, não pelo impacto concreto sobre a vida das pessoas. O País se satisfaz com metas cumpridas no papel, enquanto o cotidiano segue pressionado por custos ocultos que não entram plenamente nas contas.
Os juros elevados, por sua vez, são frequentemente tratados como um problema técnico isolado, quase uma imposição abstrata da política monetária. Na prática, refletem desequilíbrios estruturais profundos: fragilidade fiscal, insegurança jurídica, ausência de reformas e um histórico recorrente de improviso econômico. O custo do dinheiro no Brasil não é apenas uma decisão do Banco Central; é o retrato da desconfiança acumulada ao longo do tempo.
Nesse contexto, cabe ao governo Lula assumir sua parcela de responsabilidade. Ao longo do atual mandato, a condução fiscal errática, a retórica hostil ao ajuste, o adiamento de reformas estruturais e a insistência em ampliar gastos sem a devida compensação contribuíram para manter elevado o risco do País. O resultado é conhecido: hoje, a taxa básica de juros está em 15% ao ano, um dos patamares mais altos do planeta, sufocando o crédito, desestimulando o investimento e prolongando o baixo crescimento.
As perspectivas para o início de 2026 tampouco autorizam otimismo. Mesmo com projeções de queda gradual da Selic ao longo do ano, o consenso é de que o Brasil seguirá convivendo com juros de dois dígitos por um período prolongado. Trata-se de um cenário que escancara o fracasso em restaurar a confiança e criar condições mínimas para uma recuperação mais robusta.
Ignorar a inflação invisível e naturalizar juros estratosféricos é aceitar uma narrativa incompleta e conveniente sobre o País. A estabilidade que importa não é apenas a que cabe na planilha, mas a que chega ao bolso do cidadão. E essa, sob a atual condução econômica, segue distante.