Tráfico de drogas no varejo e no atacado

Por Cruzeiro do Sul

As apreensões de drogas ilícitas em quantidades significativas são diárias em Sorocaba e cidades da região, como se vê pelo noticiário, e mostram a dinâmica desse tipo de crime, que destrói famílias e a saúde de quem não consegue se livrar do vício. São muitos os males que os entorpecentes causam, inclusive a decadência de alguém que perde emprego, casamento, moradia e passa a viver nas ruas, sem perspectivas.

O trabalho policial de combate ao tráfico é cotidiano nas rodovias, portos, aeroportos, fronteiras, e também nos bairros de pequenas e grandes cidades. As cargas de uma ou mais toneladas de drogas, transportadas no meio de mercadorias em caminhões, nas bagagens em ônibus e até em veículos pequenos vão chegar do traficante varejo, que vende nas chamadas “biqueiras”. Esse pequeno traficante, porém, não trabalha sozinho. Ele faz parte das muitas ramificações do crime organizado, que controla o fluxo da droga, geralmente vinda de países que fazem fronteira com o Brasil. Os principais são Bolívia e Paraguai. As pessoas que transportam drogas, conhecidas como “mulas”, depois de serem detidas costumam citar que pegaram o carregamento perto das fronteiras com esses países para levar aos grandes centros, como a capital paulista.

Nos últimos anos, as interceptações tiveram aumento em frequência e quantidade nas rodovias da região de Sorocaba, principalmente na Raposo Tavares. As apreensões têm sido recordes. Informações antecipadas e técnicas mais precisas de vistoria nos veículos facilitam a localização pelos policiais. Mas nem todas as cargas de droga são descobertas, o que indica que o tráfico consegue fazer passar ainda grandes quantidades.

O Brasil permanece como rota relevante para o escoamento internacional de drogas, utilizando portos e aeroportos, como Santos e Guarulhos, e vias terrestres e fluviais. Além disso, parte desse entorpecente abastece o mercado interno.

Cerca de 11,4 milhões de brasileiros já usaram cocaína ou crack, e quase metade da população percebe o tráfico como frequente em seus bairros, especialmente nas regiões Sudeste e Norte. O álcool continua sendo a droga lícita mais consumida e a dependência leva a danos sociais e físicos semelhantes de outras drogas.

O panorama geral é de um mercado em expansão e em constante adaptação, comandado por facções criminosas que já se diversificaram para outros tipos de negócios, muitos deles legais ou com aparência de legalidade, se infiltrando nos setores financeiros e de combustíveis, como revelaram recentes operações da Polícia Federal e Polícia Civil de São Paulo. As autoridades correm para acompanhar as mudanças nas táticas e rotas do tráfico no atacado. A cooperação entre as diferentes esferas policiais (municipal, estadual e federal) e a integração de dados constituem um importante avanço, mas que ainda parece ser insuficiente.

O tráfico é o crime de maior número de detenções no País, com cerca de 24%. Dados do primeiro semestre de 2024 indicavam que 173 mil pessoas estavam presas por esse motivo — a grande maioria pelo chamado tráfico de varejo, que é a venda pulverizada nos bairros e periferias. Mortes e violência fazem parte desse ciclo, em que facções disputam áreas de atuação e influência.

A vulnerabilidade socioeconômica, pobreza e a falta de oportunidades são fatores que fazem com que os jovens sejam atraídos para essa atividade criminosa, que se torna alternativa econômica, apesar dos riscos. Uma pesquisa do Instituto Data Favela, divulgada em novembro de 2025, ouviu quase 4 mil pessoas envolvidas com o tráfico de drogas e a maioria (58%) disse que gostaria de deixar voluntariamente essa condição caso pudesse garantir o sustento econômico e a estabilidade pessoal. Outros 31%, no entanto, disseram que não sairiam desta situação.

Há necessidade de um debate contínuo sobre estratégias e legislação para fechar o cerco à atuação expansionista do crime organizado. O tráfico especificamente, que causa tantas perdas e prejuízos à sociedade em diferentes aspectos, deve ser combatido de muitas maneiras. Por um lado, a redução da oferta, por meio da repressão ao crime organizado, controle de fronteiras e mesmo as apreensões em pequenas quantidades, que são o dia a dia do trabalho policial ostensivo nas cidades. De outro, ações públicas e institucionais para redução da demanda, por meio de prevenção, tratamento e reinserção social, conforme prevê a Política Nacional sobre Drogas (Pnad).