Entre o sigilo e a suspeita

Por Cruzeiro do Sul

A democracia se enfraquece não apenas quando direitos são suprimidos de forma explícita, mas, sobretudo, quando práticas opacas se naturalizam no interior do Estado. O uso recorrente do sigilo, a blindagem política e a dificuldade de escrutínio público sobre atos do poder central formam um ambiente propício à desconfiança e esta, quando se instala, corrói a legitimidade das instituições. Os episódios recentes que envolvem o Palácio do Planalto reforçam essa preocupação.

O possível envolvimento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, em um escândalo que atinge o INSS, ainda que cercado de informações preliminares e versões contraditórias, reacende um debate que o Brasil conhece bem: a relação delicada de interesses que orbitam o poder. Não se trata de antecipar julgamentos ou condenações, mas de reconhecer que qualquer suspeita que alcance o núcleo familiar do chefe do Executivo exige investigação rigorosa, transparente e isenta, exatamente para proteger o Estado de contaminações políticas e preservar a confiança pública. A transparência dá uma garantia para isso.

Esse cenário se torna ainda mais sensível diante da informação de que a Procuradoria-Geral da República decidiu, em caráter sigiloso, arquivar a investigação que apurava a sonegação de informações por parte da Presidência da República sobre gastos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da primeira-dama, Janja, além do controle e da publicidade das visitas de familiares do presidente ao Palácio do Planalto. O inquérito havia sido instaurado pelo Ministério Público Federal há cerca de um ano, justamente para esclarecer se houve violação aos princípios constitucionais da publicidade, da moralidade administrativa e da transparência.

O arquivamento de uma investigação é prerrogativa legal da PGR e deve ser respeitado dentro do Estado de Direito. O problema central, porém, não reside apenas na decisão em si, mas no modo como ela foi tomada e comunicada. Quando decisões que envolvem o uso de recursos públicos, a rotina do Palácio e o acesso de familiares do presidente são protegidas por sigilo, a mensagem transmitida à sociedade é a de que o poder prefere o silêncio à prestação de contas.

A experiência brasileira demonstra que o sigilo, quando utilizado como regra e não como exceção, raramente serve ao interesse público. Ao contrário, ele alimenta suspeitas, estimula versões paralelas e fragiliza a credibilidade das instituições responsáveis pelo controle do poder. Em democracias maduras, a transparência é compreendida como instrumento de proteção do governante correto, não como ameaça.

O desconforto institucional aumenta quando se observa que, em períodos recentes, familiares de outros presidentes foram submetidos a investigações prolongadas, intensa exposição pública e ampla divulgação de informações, muitas vezes antes mesmo da conclusão de apurações formais. A comparação não deve servir como argumento de revanche, mas como alerta para a necessidade de coerência. O rigor do Estado não pode variar conforme o governo de turno, a orientação ideológica ou o capital político do investigado.

A soma desses episódios — suspeitas envolvendo o filho do presidente em um escândalo sensível como o do INSS e o arquivamento sigiloso de investigações sobre transparência no Planalto — projeta um sinal preocupante. Ele sugere que, mais uma vez, o poder tende a se fechar sobre si mesmo quando questionado, recorrendo a expedientes questionáveis para evitar o escrutínio público amplo e qualificado.

A promessa de reconstrução institucional, frequentemente reiterada pelo atual governo, perde força quando práticas antigas ressurgem sob nova retórica. Transparência seletiva não é transparência. Combate a abusos não pode coexistir com zonas de sombra no centro do poder. O Estado não se fortalece quando se protege do cidadão, mas quando se submete ao controle da sociedade.

O Brasil já aprendeu, a duras penas, que a confusão entre o público e o privado, somada à complacência institucional, cobra um preço alto. Governos passam, mas os danos à credibilidade das instituições permanecem. Por isso, mais do que discursos, o País precisa de práticas consistentes.

A democracia exige luz permanente sobre o poder. Onde o sigilo se torna regra, a suspeita prospera. E quando a suspeita se instala no coração do Estado, não há narrativa política capaz de conter o desgaste.