O balanço do ano e os boletos

Por Cruzeiro do Sul

Os últimos dias de 2025 chegam sem o clima de alívio que, em outros tempos, costumava marcar o encerramento do calendário. Passado o Natal, o brasileiro médio não se permite a pausa simbólica entre um ano e outro. O que se impõe, agora, é a necessidade urgente de fazer contas, revisar planilhas domésticas e encarar uma realidade que se tornou mais dura ao longo dos últimos meses: famílias endividadas, crédito caro, renda comprimida e um horizonte de despesas obrigatórias logo na virada para janeiro.

Não se trata apenas de uma percepção subjetiva. O retrato econômico do País ao fim de 2025 revela um cotidiano marcado por juros elevados, consumo retraído e crescente dificuldade de planejamento financeiro. Em milhões de lares, o esforço não é mais para crescer ou investir, mas simplesmente para fechar o ano “no azul” ou, ao menos, evitar que o vermelho se aprofunde. A ceia foi paga em parcelas. Agora, a preocupação se volta para os boletos que não pedem licença para chegar.

Janeiro, como se sabe, não costuma ser generoso. IPVA, IPTU, material escolar, matrículas, reajustes de serviços essenciais. Tudo isso se apresenta de forma quase simultânea, pressionando um orçamento já comprometido por dívidas acumuladas ao longo de um ano de crédito restrito e caro. O custo do dinheiro no Brasil segue entre os mais elevados do mundo, e esse não é um detalhe técnico: é uma variável que afeta diretamente o cotidiano da população, do pequeno comerciante ao assalariado formal, do autônomo ao aposentado.

A política econômica adotada pelo governo Lula tem parcela relevante de responsabilidade nesse cenário. Ao longo de 2025, o País assistiu a uma sucessão de sinais contraditórios: discursos que prometiam crescimento com inclusão, mas práticas que mantiveram elevada a percepção de risco fiscal; anúncios de programas e gastos sem o devido lastro de credibilidade; embates recorrentes com o Banco Central, que apenas reforçaram a instabilidade e contribuíram para a manutenção de juros altos por mais tempo do que o desejável.

O resultado concreto dessa combinação é conhecido: crédito escasso, financiamento caro e inadimplência em patamares preocupantes. O custo do dinheiro tornou-se um obstáculo real à retomada mais vigorosa da economia. Comprar, investir ou mesmo renegociar dívidas passou a exigir cautela redobrada. Para as famílias, isso se traduz em escolhas difíceis: cortar consumo, adiar planos, sacrificar lazer e, em muitos casos, comprometer parte significativa da renda futura para honrar compromissos do presente.

Ao chegar ao fim de 2025, a sensação predominante não é de encerramento, mas de transição tensa. Não houve espaço para balanços otimistas. Houve, sim, a constatação de que o País perdeu mais um ano sem enfrentar de forma estrutural seus problemas históricos: desequilíbrio fiscal, baixa produtividade, insegurança jurídica e um ambiente de negócios ainda hostil para quem produz e gera empregos. Sem avanços consistentes nessas frentes, qualquer promessa de crescimento sustentável soa frágil.

As projeções para os primeiros dias de 2026, portanto, exigem realismo. Não há sinais claros de alívio imediato. O ano começa sob a pressão de contas obrigatórias e com pouco espaço para consumo adicional. A expectativa de redução significativa dos juros segue condicionada a decisões políticas que, até aqui, têm sido adiadas ou tratadas com retórica, mas sem a firmeza necessária. Enquanto isso, o brasileiro comum segue pagando a conta de escolhas que não fez.

Isso não significa, contudo, que o Brasil esteja condenado à estagnação. Significa que será preciso coragem. Não apenas das famílias, mas também do governo. Coragem para reconhecer erros, ajustar rumos e abandonar a tentação de atribuir responsabilidades sempre a fatores externos ou a heranças do passado. A economia não responde a discursos, mas a sinais claros, previsibilidade e confiança. E confiança, uma vez perdida, custa caro para ser reconstruída.

No plano doméstico, a palavra de ordem é prudência. Planejamento financeiro deixou de ser recomendação e tornou-se necessidade básica. Ajustar expectativas, priorizar despesas essenciais e evitar novas dívidas são atitudes que se impõem não por virtude, mas por sobrevivência econômica. 2026 continuará exigindo maturidade financeira de milhões de brasileiros que, apesar das dificuldades, seguem tentando manter a dignidade e a estabilidade de seus lares.

Ao Brasil, resta a escolha entre persistir na lógica do improviso ou assumir, de forma responsável, o desafio de reconstruir fundamentos econômicos sólidos. Os últimos dias de 2025 não oferecem muito a celebrar, mas oferecem um alerta claro. Ignorá-lo será empurrar, mais uma vez, o custo do desequilíbrio para quem menos pode pagar. Encará-lo com seriedade pode não produzir resultados imediatos, mas é o único caminho para que os próximos finais de ano não sejam apenas um exercício coletivo de resistência.