A janela conveniente

Por Cruzeiro do Sul

A recente declaração da ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, a lulista Gleisi Hoffmann, que atribuiu à taxa básica de juros como a principal — senão única — responsável pelo crescimento da dívida pública brasileira, diz menos sobre economia e mais sobre a estratégia política adotada pelo governo para lidar com seus próprios dilemas fiscais. Ao responsabilizar a Selic pelo avanço da dívida, o Planalto age como quem culpa a janela pela feiura da paisagem, recusando-se a admitir que o problema está do lado de dentro.

É inegável que juros elevados pressionam o custo do endividamento público. Com a Selic em 15% ao ano, no maior patamar desde 2006, o serviço da dívida consome parcela significativa do Orçamento, reduzindo o espaço para investimentos e políticas públicas. Esse é um fato objetivo. O erro — político e técnico — está em tratar esse efeito como causa, e não como consequência.

Juros não são fenômenos autônomos, nem instrumentos movidos por vontade ideológica. São preços. E, como todo preço, refletem risco. Quanto maior a percepção de descontrole fiscal, insegurança institucional e ausência de um plano crível de médio e longo prazo, maior será a taxa exigida para financiar o Estado. Nesse sentido, os juros elevados não criam o problema fiscal; apenas revelam, com números, aquilo que o discurso oficial tenta esconder.

Ao minimizar o crescimento real das despesas públicas, estimado em cerca de 5% acima da inflação, a ministra sugere que esse dado seria irrelevante ou fruto de interpretação enviesada. Não é. Em um país que já convive com dívida elevada, rigidez orçamentária crônica e baixo crescimento estrutural, expandir gastos correntes sem contrapartidas estruturais é uma escolha política de alto risco. E toda escolha tem custo.

Culpar a Selic pelo avanço da dívida é como culpar a janela pela paisagem ruim. A janela apenas permite ver o que está do lado de fora — ou, neste caso, o reflexo das decisões tomadas internamente. A paisagem fiscal brasileira se deteriora porque o Estado gasta mal, gasta muito e resiste sistematicamente a rever privilégios, subsídios ineficientes e despesas obrigatórias que crescem de forma automática, independentemente da arrecadação.

O discurso que transforma o Banco Central em vilão do desenvolvimento também não é novidade. Trata-se de um recurso retórico recorrente em governos que enfrentam dificuldades para conciliar promessas políticas com limites econômicos. Ao atacar a autoridade monetária, o Executivo tenta deslocar o foco do debate, evitando discutir o cerne do problema: a fragilidade da política fiscal e a falta de compromisso inequívoco com o equilíbrio das contas públicas.

É preciso lembrar que o Banco Central opera dentro de um mandato legal, cujo objetivo principal é preservar o poder de compra da moeda. Em um ambiente marcado por incertezas fiscais, revisões constantes de metas, discursos contraditórios e sinais ambíguos sobre responsabilidade orçamentária, a tendência natural da política monetária é ser mais cautelosa. Não por ideologia, mas por obrigação institucional.

A narrativa de que os juros “sugam” recursos públicos ignora que esse Orçamento já nasce comprimido por escolhas feitas ao longo de anos — e intensificadas no presente. Não são os juros que criam a rigidez fiscal; eles apenas encarecem um modelo que se recusa a passar por reformas profundas. Enquanto o governo tratar o controle de gastos como tabu político e a revisão do Estado como ameaça eleitoral, continuará buscando culpados externos para problemas internos.

A história econômica brasileira oferece exemplos suficientes dos riscos de se tentar forçar a queda dos juros sem enfrentar o desarranjo fiscal. O resultado costuma ser inflação mais alta, desvalorização cambial, fuga de investimentos e, ironicamente, juros ainda maiores no futuro. Quem paga essa conta não são os discursos oficiais, mas a população, especialmente os mais pobres.

É legítimo e necessário debater o nível da Selic e seus impactos sobre a economia real. O que não é legítimo é transformar esse debate em uma cortina de fumaça para encobrir a falta de disciplina fiscal. O discurso oficial insiste em quebrar o espelho para não encarar o reflexo. Juros altos não surgem por geração espontânea, nem por má vontade técnica. Eles são respostas objetivas a sinais concretos emitidos pelo próprio governo.

Enquanto o Planalto insistir em culpar a janela pela paisagem, o Brasil seguirá refém de um ciclo previsível: mais desconfiança, mais risco, mais juros e menos crescimento. Romper esse ciclo exige menos retórica e mais responsabilidade. Menos narrativas convenientes e mais decisões difíceis.

No fim, quebrar a janela não melhora a paisagem. Apenas impede que se enxergue o problema que está do lado de dentro, até que a conta chegue, inevitavelmente, para todos.