A manutenção do juros altos
Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, manteve a Taxa Selic, juros básicos da economia, em 15% ao ano, em decisão anunciada no anoitecer da quarta-feira. Essa é a terceira reunião seguida, sob a presidência de Gabriel Galípolo — escolhido por Lula — em que o Copom mantém os juros básicos. A taxa está no maior nível desde julho de 2006, quando estava em 15,25% ao ano. Após chegar a 10,5% ao ano em de maio do ano passado, a taxa começou a ser elevada em setembro de 2024. Chegou a 15% ao ano na reunião de julho, sendo mantida nesse nível desde então.
A Selic é o principal instrumento do Banco Central para manter sob controle a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A manutenção da taxa em 15% ao ano veio com o recado que ela deve permanecer assim por “um período prolongado” e um aviso ao governo Lula de que a forma como está conduzindo a área econômica precisa ser revista.
Para explicar por qual motivo o Copom manteve a Selic elevada, o Banco Central emitiu nota onde explica que “o ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige particular cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica.”
Mas, não é só isso: “em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, mas o mercado de trabalho ainda mostra dinamismo. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes apresentaram algum arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação.”
As expectativas de inflação para 2025 e 2026 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,5% e 4,2%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o segundo trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,3% no cenário de referência. Então, “os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual.”
Portanto, a decisão expõe mais do que uma opção técnica, faz um diagnóstico político: o Brasil segue preso ao ciclo da desconfiança. Em tese, juros tão altos deveriam ser a exceção, instrumento para conter pressões inflacionárias eventuais. Na prática, tornaram-se o escudo permanente do Banco Central que, diante das incertezas fiscais e do comportamento errático do governo, prefere a prudência ao risco.
O mercado reagiu com frieza, mas não com surpresa. A instabilidade provocada por declarações contraditórias sobre o arcabouço fiscal, pelos gastos crescentes e pela dificuldade em cumprir metas de resultado primário cria um ambiente de cautela. O governo Lula, embora critique os juros elevados, tem contribuído decisivamente para mantê-los onde estão. Quando o presidente insiste em desautorizar sua equipe econômica ou em sugerir que responsabilidade fiscal é “invenção do mercado”, passa ao investidor uma mensagem clara: o controle de gastos é frágil e, portanto, a inflação pode voltar a subir.
O Copom, por sua vez, age como guardião de uma estabilidade que o Executivo ameaça com sua retórica. Mantém a Selic em nível elevado não por prazer, mas por necessidade. Juros menores exigem confiança, e confiança se conquista com previsibilidade. Enquanto o governo envia sinais contraditórios, o Banco Central entende que baixar a guarda seria um erro.
O custo dessa política é pesado. Empresas adiam investimentos, o crédito encarece e as famílias endividadas sentem o peso dos juros no orçamento. O País cresce pouco e se acomoda na mediocridade. Mas culpar apenas o Copom é ignorar o contexto: não há economia que floresça sob a sombra da incerteza fiscal.
O mercado, por sua vez, também tem responsabilidade. Exagera nas reações e, muitas vezes, transforma o pessimismo em profecia autorrealizável. A rigidez nas expectativas e a desconfiança automática diante de qualquer sinal político distorcem a leitura da realidade.
Ainda assim, é o governo quem detém o poder de quebrar esse ciclo. Bastaria demonstrar coerência e compromisso com a responsabilidade pública. Enquanto isso não ocorre, a Selic permanecerá como símbolo do impasse brasileiro: juros altos sustentados por um governo que diz combatê-los, um Banco Central que teme soltá-los e um mercado desconfiado. No fim, quem paga a conta é o cidadão comum, refém de um modelo em que a política fiscal fala mais alto que a razão econômica.