Sobre o episódio do Rio de Janeiro

Por Cruzeiro do Sul

 

 

A segurança pública, assim como outras áreas essenciais ao bem-estar coletivo, e, principalmente, para o cidadão de bem, independentemente de onde mora, sua cor e credo, deveria estar acima de disputas partidárias e outros interesses escondidos. O episódio recente no Rio de Janeiro, marcado por uma megaoperação policial que resultou em mortes de quatro policiais — profissionais que dedicaram as suas vidas à sociedade — e de integrantes do Comando Vermelho, apreensões de adolescentes que, embora crianças, já servem ao crime, de armamentos pesados — que nem as forças de segurança possuem — também alimentou críticas politizadas acaloradas, expondo ao mundo não apenas a complexidade do combate ao crime organizado, mas também as fissuras políticas entre governos estaduais (no caso específico, o do Rio de Janeiro) e o federal.

A reação pública e institucional pós-operação revelou uma preocupante tendência à politização da violência. Enquanto o governador Cláudio Castro defendeu a ação como resposta necessária à escalada do poder paralelo nas comunidades cariocas, integrantes do governo Lula gastaram horas para entender o que realmente aconteceu para afinar o discurso federal. O resultado foi uma enxurrada de retóricas que em nada contribui para a solução do problema estrutural: a ausência histórica do Estado nos territórios dominados por facções.

O que se espera de autoridades, em qualquer esfera, é cooperação, não confronto. A segurança pública não pode ser usada como instrumento de visibilidade eleitoral, tampouco transformada em arena ideológica. A combate ao crime organizado e ao poder das facções as exigem mais que megaoperações: requer políticas integradas, investimento em inteligência policial, oportunidades sociais e presença constante do poder público para evitar que drogas e armas entrem — e saiam — no Brasil sem o menor controle. Para onde vai tanta droga? Quem se beneficia com as armas extremamente letais. Quem deixou a “coisa” praticamente sair do controle? Faltam respostas, os nomes dos responsáveis e suas respectivas punições.

O episódio do Rio de Janeiro, mais uma vez, oferece uma lição ao País, principalmente em razão do crime organizado ter dominado todos os Estados brasileiros, comprando poder com dinheiro sujo e a rapidez que recompõem a liderança que cai. Quando a segurança se torna disputa política, quem perde é o cidadão comum — aquele que vive refém do medo, distante da retórica e das promessas de gabinete. É urgente compreender que combater o crime exige unidade de propósitos e continuidade de ações, não discursos fragmentados. A segurança do cidadão não deve ser pauta de embate, mas de Estado.

A megaoperação policial ocorrida no Rio de Janeiro reacendeu um velho debate nacional: até onde vai o poder do Estado e onde começa a responsabilidade da União quando a segurança pública se mostra incapaz de conter o avanço do crime organizado? A tragédia que se desenrolou nas comunidades cariocas — marcada por mortes, helicópteros sobrevoando favelas e uma rotina de medo — trouxe novamente à tona os limites da atuação dos entes federativos e o eterno impasse entre autoridade e abuso, entre ação legítima e espetáculo da violência.

A Constituição é clara: a segurança pública é dever do Estado e direito do cidadão, cabendo às polícias estaduais a preservação da ordem e da incolumidade das pessoas. No entanto, quando a crise assume contornos de guerra, como se viu no Rio, o governo federal pode — e deve — intervir, não como protagonista político, mas como garantidor da lei e da ordem.

O governo do Rio reclamou por uma falta de apoio do governo federal, enquanto que o governo federal disse que não receber nenhum pedido de ajuda. E se a pergunta for “quem tem razão?”, a resposta talvez seja: ninguém! E quem perde na “guerra” das retóricas? Mais uma vez é o cidadão de bem, o mesmo fragilizado pela falta de segurança pública e de outros serviços obrigatórios que o Estado deve garantir. Entre o silêncio dos becos e o ruído das narrativas, aquele que só deseja viver em paz, sem precisar escolher de que lado da política vem a sua segurança, precisa convencer o medo de que tudo pode ficar bem.

O Brasil precisa, urgentemente, de um pacto federativo real na área da segurança. Enquanto a proteção da vida continuar servindo de palco para vaidades políticas, as operações continuarão sendo manchete — e não solução.