Cultura da leitura em declínio
O hábito da leitura entre os brasileiros está em queda. No Brasil, país com mais de 200 milhões de habitantes, o número de não leitores representa 53% da população. O dado desperta preocupação na Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, celebrada entre quinta (23) e amanhã (29) e foi tema de reportagem da Agência Senado de Notícias.
Hoje, o Brasil tem cerca de 93,4 milhões de leitores — quem leu ao menos um livro nos três meses anteriores —, que correspondem a 47% da população. O número é oito pontos percentuais menor do que o registrado em 2007, quando os leitores eram 55% dos brasileiros, mostra a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro e Ministério da Cultura.
A queda, no entanto, não é apenas percentual. O estudo também aponta para uma diminuição da capacidade de concentração e compreensão, acendendo um alerta sobre o avanço do chamado analfabetismo funcional. A condição, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), abrange pessoas que até reconhecem letras e números, mas não conseguem interpretar textos simples e usar a leitura e a escrita no cotidiano, o que afeta o desenvolvimento pessoal e a plena cidadania.
Os dados da pesquisa indicam que, além da redução do hábito da leitura, houve declínio na compreensão do que se lê: 36% dos entrevistados admitiram ter alguma barreira de habilidade, como falta de concentração ou compreensão limitada. Além disso, a falta de paciência e de foco para a leitura saltou de 18% em 2007 para 40% em 2024.
O prazer pela leitura também está em queda. A parcela dos que “gostam muito” de ler caiu de 31% em 2019 para 26% em 2024. Em contrapartida, o número de pessoas que afirmam não gostar do hábito cresceu de 22% para 29%.
A relação com o livro muda ainda com a idade: as crianças (de 5 a 13 anos) são as que mais gostam de ler (87%), enquanto a população acima de 50 anos demonstra menor apreço pela leitura (57%). Segundo os entrevistados na pesquisa, a principal motivação para ler é o gosto pessoal, seguido por distração e busca por conhecimento, enquanto a obrigação (escolar ou profissional) aparece com pouca relevância.
Apesar da hegemonia das telas, quando se trata de livros, o papel ainda resiste: 57% dos leitores preferem o formato impresso contra 22% que optam pelo digital. A maioria afirma que consegue se concentrar melhor e compreender a história com mais profundidade no livro impresso, sem interrupções e distrações, como as notificações de mensagens que aparecem na mesma tela em que está sendo feita a leitura.
Se a formação de leitores é um desafio, o papel das bibliotecas públicas nesse processo parece cada vez mais fragilizado. Apenas 5% dos entrevistados afirmaram ter nesses espaços sua principal forma de acesso a livros.
Para a maioria dos entrevistados, a imagem das bibliotecas ainda está atrelada a um local silencioso para pesquisa e estudo, uma visão que limita seu potencial como centro de convivência e difusão cultural. O resultado é o esvaziamento desses espaços: 75% dos brasileiros declararam nunca frequentar uma biblioteca, um aumento em relação aos 68% de 2019. Ainda entre públicos que deveriam ser cativos, os números são altos: 49% dos estudantes e 60% dos leitores não frequentam bibliotecas.
Ao contrário do que se poderia pensar, o problema não parece ser a infraestrutura, geralmente bem avaliada por quem a utiliza. A questão reside na percepção e no desinteresse. A percepção sobre a existência de bibliotecas nos bairros piorou: 46% dos entrevistados disseram não haver uma por perto em 2024, contra 20% em 2007.
Embora o Brasil conte com 3.415 bibliotecas públicas, segundo o Ministério da Cultura, para quase metade da população elas são invisíveis. A indiferença também cresceu: ao serem questionados sobre o que os levaria a frequentar mais o espaço, 39% dos não frequentadores responderam “nada”, ante 29% em 2019.
A queda no hábito de leitura entre os brasileiros revela um empobrecimento cultural preocupante, cujo reflexo futuro será uma sociedade menos crítica, menos informada e mais vulnerável à manipulação. Para reverter essa tendência, é essencial investir em políticas públicas de incentivo à leitura, como bibliotecas acessíveis e programas de distribuição de livros, valorizar o professor como mediador do conhecimento, integrar práticas de leitura ao cotidiano escolar e familiar, e fortalecer campanhas culturais que mostrem o livro não apenas como obrigação, mas como fonte de prazer, liberdade e consciência crítica.