Trânsito é questão de consciência
Números do Infosiga — Sistema de Informações Gerenciais de Sinistros de Trânsito do Detran-SP — colocam Sorocaba na 3ª posição no ranking de óbitos no trânsito no Estado de São Paulo, com média de 16,91 por 100 mil habitantes em 12 meses.
Essa realidade não é nada confortável e evidencia que há muito a ser feito. Cada morte no asfalto expressa carências que vão da vulnerabilidade socioeconômica, passa pela deficiência de infraestrutura e chega à cultura de impunidade associada à ausência de políticas integradas eficazes.
Quando se fala em violência no trânsito, percebe-se um fenômeno que resulta em perdas irreparáveis — vidas, potencial humano, famílias destruídas — e que escapa da lógica meramente “acidental”. É uma violência silenciosa, que, infelizmente, se naturaliza, mas que exige ser tratada como questão de Estado.
A violência no trânsito brasileiro não é uma fatalidade inevitável mas sim um sintoma de falhas persistentes na forma como projetamos nossas cidades, gerimos a mobilidade e protegemos vidas. Na medida em que corpos se tornam estatísticas, perde-se o caráter humano da tragédia. E isso é inaceitável.
Se o Estado não agir com firmeza, reforçando infraestrutura, investindo em mobilidade segura, aplicando fiscalização, educando e monitorando, continuaremos a assistir à repetição silenciosa desse tipo de violência. Cabe à sociedade cobrar, planejar e radicalizar na prevenção para que as ruas deixem de ser arenas de risco e se tornem espaços de vida digna.
Vem do Governo de São Paulo uma boa ideia que pode sim formar cidadãos conscientes para a vida e para o trânsito. A Secretaria de Educação propôs a inclusão da temática segurança no trânsito na educação básica. A contribuição foi direcionada ao Plano de Segurança Viária do Estado de São Paulo, documento que norteia as ações para reduzir sinistros, mortes e lesões no trânsito.
A ideia é incentivar a inserção da educação para o trânsito em diferentes áreas curriculares e projetos pedagógicos da educação básica, em linha com a Base Nacional Comum Curricular.
A proposta inclui a criação de módulos de formação de condutores na rede básica, com foco no tema da segurança viária e da proteção de usuários de trânsito vulneráveis. Há ainda a ideia de promover premiações e concursos de ideias, hackatons e desafios temáticos em segurança viária, estimulando os estudantes a se aprofundar no tema.
A educação para a segurança viária deve começar cedo e se manter presente ao longo de todo o percurso educacional, formando cidadãos comprometidos com a preservação da vida. No contexto do Sistema Seguro, a escola não é apenas um espaço de transmissão de conhecimento, mas também um ambiente privilegiado para mobilizar e engajar estudantes como agentes de transformação, capazes de influenciar suas comunidades e promover mudanças concretas a partir de suas respectivas casas.
O foco em estudantes não é à toa, uma vez que os jovens de 18 a 25 anos somam mais de 20% das vítimas de sinistros de trânsito no Estado de São Paulo. Todos os anos, mais de 5 mil jovens perdem a vida em acidentes, o que equivale a uma morte a cada 8 horas de jovens nessa faixa etária. Já segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o trânsito é a principal causa de morte de crianças e jovens de 5 a 29 anos em todo o mundo.
Este é um desafio de cidadania, de governança e de justiça social. A solução não está apenas nos gráficos e nas metas, mas na concretização diária de um trânsito que respeite a vida.
Afinal, a tragédia do trânsito brasileiro não é obra do acaso. É consequência direta da soma de pequenas imprudências, descuidos e da cultura de “tudo bem, só hoje”. Estatísticas nacionais e locais, como as de Sorocaba, mostram que os acidentes fatais continuam superando os homicídios, o que revela o quanto o asfalto se tornou palco de violência cotidiana.
Mas há uma diferença entre fatalidade e irresponsabilidade. O trânsito é um espaço coletivo, e a sua segurança depende tanto das políticas públicas quanto da postura de cada cidadão. Cada pessoa, ao assumir o volante, atravessar a rua ou pilotar uma moto, tem o poder de decidir entre perpetuar o problema ou fazer parte da solução.