Calor que ameaça a vida
O Brasil está se tornando um país cada vez mais quente, e não apenas no sentido figurado. As ondas de calor deixaram de ser exceção por aqui e tornaram-se uma ameaça permanente. O clima tropical vive agora sob o peso das mudanças climáticas, que transformaram o calor extremo em um desafio de saúde pública. A elevação das temperaturas já provoca consequências graves, especialmente entre os idosos, grupo mais vulnerável e numeroso de nossa população.
Estudos recentes mostram que milhares de mortes, nas últimas décadas, podem estar associadas a períodos de calor intenso. Em idosos, o corpo perde a capacidade natural de regulação térmica, e doenças crônicas — como hipertensão, diabetes e problemas cardíacos — se agravam rapidamente. A desidratação, a exaustão e até o colapso circulatório se tornam riscos concretos, muitas vezes fatais.
Esse quadro evidencia um país despreparado. Nossas cidades, cobertas de concreto e carentes de áreas verdes, funcionam como câmaras térmicas. Milhares de pessoas idosas vivem sozinhas, sem ventilação adequada, sem acesso a aparelhos de arrefecimento e, sobretudo, sem informação. Falta uma política pública sólida de adaptação ao calor extremo.
Não bastam alertas meteorológicos. É urgente integrar saúde, meio ambiente e urbanismo. É preciso arborizar, planejar sombras, criar espaços de refúgio térmico, orientar a população e estruturar protocolos médicos de prevenção.
O calor mata e sua letalidade é previsível. Hoje, uma em cada 100 mortes na América Latina está relacionada as altas temperaturas e esse número pode chegar a mais do que o dobro em 20 anos, considerando o ritmo normal de envelhecimento da população e cenários moderados de aquecimento global, entre 1ºC e 3ºC de aumento para o período de 2045 a 2054. Estimadas hoje em 0,87% do total, as mortes por calor podem chegar a 2,06% no pior cenário. A conclusão é de uma análise de cenários feita em 326 cidades da Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, México, Panamá e Peru por uma rede de pesquisadores.
No Brasil, a participação considerou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do DataSUS e do Censo Demográfico, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Assim como nos demais países da América Latina analisados, as mortes causadas por eventos climáticos envolvendo temperaturas extremas devem aumentar consideravelmente, tanto para situações envolvendo calor quanto frio. Um fator decisivo é o aumento da população acima de 65 anos na década estimada (2045-2054), que aumenta a população mais afetada por essas doenças.
Os pesquisadores concluíram ainda que é possível impedir parte considerável dessas mortes desde que se inicie a construção e aplicação de políticas de adaptação climática voltadas para o aumento de populações vulneráveis a temperaturas extremas, como planos de ação para períodos de calor intenso e adaptações nas cidades para diminuir a exposição a temperaturas elevadas e mitigar seus efeitos na saúde, de forma acessível aos idosos e a pessoas com deficiências.
Outras medidas apontadas como eficazes são a adoção de sistemas de alerta precoce, com comunicação clara e acessível à população, a expansão de áreas verdes e criação de corredores de ventilação urbana para reduzir ilhas de calor, a educação comunitária sobre os riscos de altas temperaturas e formas de proteção individual e coletiva, além da adoção de protocolos de saúde pública para atendimento prioritário a pessoas idosas e com doenças crônicas.
O estudo faz parte do projeto Mudanças Climáticas e Saúde Urbana na América Latina (Salurbal-Clima) e reúne pesquisadores de instituições de nove países latino-americanos e dos Estados Unidos. Com duração de cinco anos (2023-2028), o Salurbal busca evidências que relacionam as mudanças climáticas aos impactos na saúde da região. O estudo completo está disponível na revista eletrônica Environment International e pode ser lido em https://drexel.edu/lac/salurbal/climate/ .
Enfrentar as altas temperaturas com políticas consistentes é mais do que questão ambiental: é dever da humanidade e do Estado.