R$ 3 trilhões em impostos
O Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) atingiu na terça-feira o valor de R$ 3 trilhões, valor que representa a soma arrecadada com impostos, taxas e contribuições pagos pelos brasileiros aos governos federal, estaduais e municipais, do início do ano até então.
O valor foi alcançado 25 dias antes do que comparado com o ano passado, quando o montante apareceu no painel somente no dia 1º de novembro. Isso revela que o ritmo da arrecadação cresceu 9,37% no intervalo de um ano.
O Impostômetro, atualizado em tempo real, é mais do que um marcador de cifras: é o retrato fiel da sede arrecadatória que domina o Estado brasileiro. São valores que impressionam pela magnitude — e que envergonham pelo retorno pífio que oferecem à sociedade
Segundo Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da ACSP, essa antecipação é resultado de uma combinação de fatores que impulsionaram a arrecadação. “Entre eles, destaca-se o aquecimento da atividade econômica”, explica o economista, que também aponta a inflação como um fator relevante, já que o sistema tributário brasileiro é fortemente baseado em tributos sobre o consumo, que incidem diretamente sobre os preços de bens e serviços.
Além disso, outras medidas contribuíram para o aumento na arrecadação: tributação de fundos exclusivos e offshores; mudanças nas regras de subvenções concedidas pelos Estados; retomada da tributação sobre combustíveis; cobrança de impostos sobre apostas on-line (bets); taxação de encomendas internacionais (taxa das blusinhas); reoneração gradual da folha de pagamento; fim dos incentivos fiscais ao setor de eventos; aumento de alíquotas do ICMS; e elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
Na contrapartida, porém, os gastos dos governos, estimados pelo Gasto Brasil, outra ferramenta das associações comerciais, somaram R$ 3,98 trilhões, ou seja, quase R$ 1 trilhão a mais que o valor arrecadado no período.
Para Ruiz de Gamboa, “esse desequilíbrio entre arrecadação e despesas primárias é preocupante porque mostra que o Brasil está operando no vermelho mesmo antes de pagar os juros da dívida. Isso compromete a sustentabilidade fiscal e pressiona ainda mais a necessidade de ajustes estruturais nas contas públicas”.
E qual é a conclusão que será tirada a partir dos números do Impostômetro e do Gasto Brasil? O contribuinte brasileiro continua sendo o grande fiador de um sistema que consome muito e entrega pouco. A carga tributária nacional, uma das mais elevadas entre as economias emergentes, sufoca famílias, penaliza a produção e encarece o consumo. Paga-se caro por serviços que, em tese, deveriam garantir qualidade de vida, mas que na prática expõem um país desigual, com escolas precárias, hospitais sobrecarregados e infraestrutura deficiente.
A promessa de alívio vem agora disfarçada de “modernização” com a Reforma Tributária de 2025, ainda em fase de regulamentação. O discurso oficial é o da simplificação e da justiça fiscal, mas há um temor legítimo de que, na prática, o novo sistema apenas reorganize a complexidade, mantendo a mesma voracidade arrecadatória. O risco é que o contribuinte continue a pagar muito, sem perceber ganhos reais na eficiência do Estado nem no retorno social dos tributos.
O problema não está apenas na quantidade de impostos, mas na forma como são cobrados e utilizados. O modelo tributário brasileiro é regressivo: pesa mais sobre o consumo do que sobre a renda e o patrimônio. Enquanto isso, o desperdício e a má gestão drenam recursos que deveriam ser revertidos em políticas públicas efetivas.
O Estado brasileiro precisa aprender a fazer mais com menos — a gastar melhor, a prestar contas, a reduzir privilégios e a simplificar tributos. É inaceitável que um país que tanto cobra ofereça tão pouco em contrapartida.
O Impostômetro e o Gasta Brasil, portanto, não são apenas indicadores econômicos. São espelhos que refletem o desequilíbrio entre o que o cidadão paga e o que recebe e que a verdadeira reforma de que o Brasil precisa não é a que busca arrecadar mais, mas a que finalmente devolve valor à sociedade.