Lula, Trump e a ONU
Parte dos habitantes da Terra estarão atentos hoje pela manhã em razão dos discursos que líderes mundiais irão proferir durante a abertura da edição 2025 da Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Digo parte, pois haverá pessoas preocupadas, aqui no Brasil — e em outras partes do mundo — com outras resoluções, como o que os filhos irão comer no almoço e se haverá almoço, por exemplo. Haverá primeiras-damas preocupadas com as compras em lojas sofisticadas da Quinta Avenida e avenida Madison, em Manhattan.
O encontro em Nova York será a primeira grande oportunidade para presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Donald Trump, dos Estados Unidos, estarem frente a frente, em meio à escalada da crise entre Brasil e Estados Unidos.
O possível encontro Lula-Trump seguer tem uma agenda confirmada e ocorre no momento em que começaram a ser aplicadas o tarifaço imposto por Washington sobre produtos brasileiros. Nos bastidores, fontes diplomáticas, informam que há antessalas para os presidentes ocuparem antes e depois dos discursos, mas não há indicação — ou confirmação — de que eles necessariamente se encontrarão.
Tradicionalmente, o Brasil é o país que abre os discursos na sessão plenária das Nações Unidas. E há várias versões para isso: seria uma espécie de “prêmio de consolação” por nunca ter conseguido ocupar uma cadeira no disputado Conselho de Segurança na ONU. Outra possibilidade para escolha, seria uma forma encontrada, no passado, para evitar aumentar a tensão entre Estados Unidos e União Soviética. O Brasil, considerado um país “neutro” abriria a Assembleia para tentar acalmar os ânimos. Porém, há, ainda, uma terceira possível justificativa para que o Brasil seja o escolhido para falar primeiro entre as nações representadas: “Em tempos muito antigos, quando ninguém queria falar primeiro, o Brasil sempre se oferecia. E assim ganhou o direito de falar primeiro na Assembleia Geral”, disse Desmond Parker, chefe de protocolo da ONU, à rádio norte-americana NPR em uma transmissão feita há tempos.
Os discursos deste ano, em especial, geram expectativas. Afinal, desde 1955, depois da fala do Brasil, quem manda o seu recado são os Estados Unidos. Hoje, esse momento tem uma importância potencializada.
Certamente, os textos serão afinados até o último minuto antes da fala, além de haver várias versões. O presidente brasileiro chega à ONU com uma cartilha previsível: a defesa do multilateralismo, da democracia, da soberania, do fortalecimento de instituições internacionais e da equidade global. Ele deve repetir temas recorrentes como desigualdade, fome, mudança climática e reformas necessárias no sistema de governança global. A grande expectativa é de como vai tratar os recentes desentendimentos com o governo Trump, sobretudo no campo comercial e em políticas externas. Qual será o tom? Ele falará a partir das 10h, logo após as falas do secretário-geral António Guterres e da presidente da Assembleia, Annalena Baerbock, ministra das Relações Exteriores da Alemanha.
Por sua vez, o presidente norte-americano Donald Trump deve criticar as “instituições globalistas” e de como elas deterioram significativamente a ordem mundial. Ele também deve enfatizar “a sua visão direta e construtiva do mundo”, adiantou a secretária de imprensa, Karoline Leavitt, em uma sessão informativa.
Pois bem: Lula e Trump podem fazer discursos que vão além de meras formalidades diplomáticas, baseados nas tensões comerciais, ideológicas e geopolíticas que se acumulam entre os dois países, bem como expressões das diferentes visões de mundo que Lula e Trump encarnam.
Apesar dos discursos serem previamente debatidos entre os assessores mais próximos de cada um dos mandatários, há a possibilidade de falas de improviso — tanto de Lula quanto de Trump. O que está em jogo não é só o que será dito hoje e sim os reflexos que virão após as falas.
O embate, assim como as decisões já tomadas, terá consequências nas tarifas, nos mercados, na diplomacia cotidiana. E, mais do que nunca, os países e atores internacionais estarão de olho para ver quem consegue transformar palavra em ação e se esses discursos serão ênfases retóricas ou pontos de virada reais.