Chegou mais uma ‘superquarta’

Por Cruzeiro do Sul

Na linguagem do mercado financeiro, poucas expressões carregam tanto peso quanto “superquarta”. Trata-se do dia em que, quase sempre de forma simultânea, o Comitê de Política Monetária (Copom), no Brasil, e o Federal Reserve (Fed), nos Estados Unidos, decidem o rumo das taxas de juros em seus respectivos mercados. É um momento de tensão em que analistas, investidores e governos ficam reféns de números, relatórios e, principalmente, do discurso adotado pelos dirigentes monetários.

A superquarta é, na prática, um reflexo da globalização financeira. O que se decide em Washington pode repercutir em São Paulo, e vice-versa. Se o Fed endurece o tom contra a inflação, elevando juros ou sinalizando que fará isso, o dinheiro tende a sair de países emergentes em busca da segurança dos títulos americanos. Do outro lado, quando o Copom toma uma decisão inesperada, como cortar juros além do previsto ou manter a Selic em patamar alto demais, a reação interna pode ser imediata, com impacto no crédito, no consumo e até na popularidade do governo.

O aspecto positivo da superquarta está justamente na transparência que ela proporciona. O mercado sabe que terá, concentrado em um único dia, o norte para suas decisões futuras. Empresas conseguem planejar investimentos com maior previsibilidade, e consumidores recebem um sinal claro sobre o custo do crédito e da inflação. Em um país como o Brasil, historicamente marcado por instabilidade econômica, a previsibilidade ganha valor.

No entanto, há também o lado nocivo. A superquarta transformou-se em um espetáculo quase midiático, em que qualquer frase mal interpretada pode gerar turbulência. Mais do que os números, o que pesa é o “tom” das atas e entrevistas. Essa dependência cria um ambiente em que economias inteiras ficam à mercê de poucos dirigentes, transformando decisões técnicas em movimentos com alto teor político. No caso brasileiro, a pressão do Executivo sobre o Banco Central adiciona ainda mais ruído ao processo, colocando em xeque a autonomia da autoridade monetária.

O fato é que a superquarta traduz a essência da economia contemporânea: globalizada, interdependente e altamente sensível a expectativas. Para os agentes financeiros, é um dia de nervosismo calculado. Para o cidadão comum, pode parecer distante, mas seus efeitos chegam rapidamente ao bolso — seja na prestação do carro, no limite do cartão ou no preço dos alimentos.

No fim das contas, a superquarta deveria ser encarada menos como um espetáculo e mais como um termômetro. Se o Brasil quiser reduzir a dependência desse “grande evento”, precisa investir em fundamentos sólidos: responsabilidade fiscal, reformas estruturais e um ambiente de negócios que dê segurança além dos humores de um único dia. Até lá, continuaremos assistindo a cada superquarta como se fosse uma final de campeonato, com emoção, tensão e impactos que não se limitam às páginas de economia.

Para a Federação do Comércio de São Paulo (FecomercioSP), o Banco Central (BC) terá uma decisão difícil hoje, que será a de manter a Selic nos atuais 15% ao ano em um cenário em que a inflação cheia, acumulada em 12 meses, dá sinais de desaceleração, mas em que a média dos preços dos serviços se mantém pressionada. Lá nos EUA, a aposta é que o Fed decida por um recuo.

“Ainda que a inflação esteja desacelerando — ficou em 5,13% no acumulado até agosto — e que a atividade econômica dê sinais cada vez mais claros de enfraquecimento — o IBC-Br, prévia do PIB, de agosto, caiu 0,50% —, o Copom deve manter, acertadamente, a taxa básica de juros do Brasil, a Selic, em 15% ao ano”, reforçam os economistas da FecomercioSP.

Isso porque a conjuntura do País está longe de ser tranquila. Os economistas assinalam que além de a inflação de serviços seguir acima de patamares saudáveis — como o grupo de alimentação fora do domicílio que, no escopo de medição do IBGE, permanece na casa dos 6% no acumulado em 12 meses —, há o fator fiscal.

“O governo apresentou uma proposta de orçamento para 2026 (LOA) com uma elevação significativa da arrecadação pública, mas não mostrou nada que aponte para uma contenção de seus gastos. Era tudo o que o mercado esperava para ajustar suas expectativas de inflação mais baixas ainda em 2025 ou no ano que vem”, observam os economistas da FecomercioSP.