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Editorial

US$ 27,7 bilhões em um mês

20 de Dezembro de 2024 às 21:30
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Em mais uma tentativa de frear a disparada da moeda norte-americana, o Banco Central injetou ontem (20) mais alguns bilhões de dólares no mercado. Foram US$ 3 bilhões em um leilão à vista e mais US$ 4 bilhões em dois leilões de linha, com promessa de recompra.

No total, com todos os leilões realizados desde o dia 12 — à vista e de linha — o Banco Central colocou US$ 27,7 bilhões no mercado este mês, o maior valor em apenas um mês já registrado. Os leilões de quinta-feira (US$ 8 bilhões), e desta sexta-feira ajudaram a conter a moeda americana, que chegou a atingir a casa dos R$ 6,30 na quinta-feira. Às 16h45, o dólar à vista estava cotado a R$ 6,0696. Na véspera, havia fechado em R$ 6,1237. Só para entendimento do que isso representa, essa quantia em dólares equivale a cerca de R$ 166,2 bilhões, considerando uma contação de R$ 6 para comprar US$ 1. Importante ressaltar que o Banco Central tem reserva de US$ 360 bilhões.

Ontem (20), o ministro da Fazenda Fernando Haddad disse que o Banco Central não fixa uma meta de câmbio, mas trabalha para corrigir disfuncionalidades, e que a preocupação que a autoridade monetária deve ter é com a meta de inflação. Para isso, a instituição manterá a taxa de juros restritiva para perseguir esse alvo.

Haddad disse que não cometeria o equívoco de dizer qual seria uma meta de câmbio que o Banco Central deveria mirar. “O problema do Banco Central é meta de inflação, não tem outra coisa que ele precisa se preocupar. Ele tem hoje a meta contínua e deve estabelecer um calendário para fazer essa meta, num espaço de tempo que seja adequado para a política monetária funcionar. Ele vai manter a taxa de juros restritiva até essa acomodação”, afirmou a jornalistas.

O ministro da Fazenda fez referências a declarações dadas pelos diretores da autarquia na quinta-feira (19), durante apresentação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI), em que os integrantes do Banco Central reconheceram “disfuncionalidades” no câmbio, inclusive com um deles defendendo o uso de reservas para corrigir esse cenário. “Eu penso que o Banco Central, pelo que foi dito ontem pelos diretores, não fixa uma meta para o câmbio, ele quer evitar as disfuncionalidades que eles reconheceram haver nos pronunciamentos de vários diretores. Mais de um diretor se manifestou sobre isso e um deles defendendo nessas ocasiões o uso de reservas para que essa acomodação pudesse acontecer”, disse Haddad.

Haddad reconheceu que o fortalecimento do dólar, ocorrido em todo o mundo, foi maior no Brasil. Em razão disso, ele avalia que é preciso “corrigir a escorregada” da moeda, não buscando uma “meta”, mas corrigindo disfuncionalidades e recuperando o equilíbrio, papel que deve ser conduzido pelo Banco Central.

A verdade é que o governo buscou “n” desculpas para a disparada do dólar, mas se esqueceu de analisar os efeitos das decisões que não toma e quando as toma, assusta o mercado. Outra verdade absoluta é que o Banco Central é uma autarquia autônoma, ou seja, uma entidade independente que não está legalmente subordinada a nenhum dos poderes da República. Seu objetivo é garantir a estabilidade econômica do País, por meio de ações que visam manter a inflação sob controle em torno da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN); garantir o poder de compra da moeda; promover um sistema financeiro sólido, eficiente e competitivo; e fomentar o bem-estar econômico da sociedade.

Para alcançar esses objetivos, o Banco Central realiza diversas ações, como gerir o meio circulante, ou seja, garantir o fornecimento adequado de dinheiro em espécie à população; conduzir as políticas monetária, cambial, de crédito e de relações financeiras com o exterior; regular e supervisionar o Sistema Financeiro Nacional (SFN); emitir e prover o meio circulante (cédulas e moedas); zelar pela adequada liquidez da economia; manter as reservas internacionais em nível adequado; e estimular a formação de poupança.

Sobre a autonomia que a instituição tem, amparada pela Constituição, Campos Neto — que está deixando a presidência do Banco Central após 6 anos — soube honrar.