Eleições municipais e a influência do crime organizado

Por Cruzeiro do Sul

O Brasil tem sido um campo fértil para o crime organizado (termo genérico que se refere a grupos criminosos que atuam de forma estruturada e coordenada para obter vantagens financeiras ou materiais). Essas organizações têm mostrado o seu poder a cada dia. E o crime avança para áreas onde são tomadas decisões de interesse coletivo, principalmente nos municípios.

Aliás crime e política têm algo semelhante bem definitivo: os que buscam o poder e, às vezes, a qualquer preço. A infiltração de grupos criminosos na política é uma das grandes ameaças das eleições municipais no País como um todo.

Não é segredo para ninguém — embora, invariavelmente, seja difícil de provar em um primeiro momento — que o crime tem financiado potenciais candidatos e, uma vez eleitos, a cobrança vem pesada por meio de contratos para a prestação de serviços públicos essenciais aos cidadãos como a saúde, transporte público, serviços de zeladoria, como capinagem e poda de árvores. É assim que funciona. Em outras ocasiões, o crime até mesmo exige a concessão de cargos estratégicos na administração pública, principalmente aqueles que têm um orçamento milionário à disposição. Há um dito popular que diz que “não existe almoço grátis”. O pior é que, para garantir que seus candidatos sejam eleitos, as organizações criminosas, muitas das vezes, podem recorrer a violências, ameaças e coação contra adversários e também contra eleitores. “O esquema é bruto”.

“É um processo que vem acontecendo no Brasil faz tempo, mas que é relativamente novo nas grandes metrópoles: o crime organizado aprendeu a trabalhar de dentro do Estado. Nos rincões do Brasil, sobretudo no norte do Brasil, isso é mais antigo: um crime organizado que elege políticos e interfere no processo eleitoral. No Rio de Janeiro, em São Paulo, ou em João Pessoa, isso é mais novo”, explica o doutor em Ciências Policiais e Segurança Pública Alan Fernandes, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Para ele, no dia da eleição, há um risco de coação, por esses grupos criminosos, contra eleitores, para que eles votem em determinado candidato ou mesmo deixem de comparecer aos locais de votação.

“O principal risco é o impedimento de comparecimento em determinadas zonas eleitorais. Em lugares que são dominados pela violência, pelo crime organizado, existem casos em que as pessoas são impedidas de comparecer ao local de votação, a depender do interesse político daquela facção. O segundo problema, nesses locais de votação, é a coação aos eleitores para que eles votem em determinado candidato de preferência daquele grupo armado”, afirma Fernandes.

Pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política e Violência da Universidade Federal Fluminense, André Rodrigues afirma que as eleições municipais são sempre mais violentas do que as eleições estaduais e federais. “São as eleições onde a gente vê mais interferência violenta na política”, afirma. “Há três mecanismos que os grupos criminosos adotam e que ameaçam as eleições: as ameaças veladas, como declarações explícitas de voto de alguém que controla uma localidade; a proibição de que alguns candidatos façam campanha em áreas de milícia ou de tráfico; e a eliminação violenta de opositores. Só na Baixada Fluminense, de 2015 para cá, a gente já contabilizou 60 assassinatos de pessoas implicadas na política local”.

É triste e preocupante. E quem perde é o cidadão de bem que, certamente, poderá ficar privado dos serviços públicos essenciais para a sua sobrevivência. E o que fazer? Escolher bem em quem votar pode ser uma saída. Mas é sabido que a “organização” consegue monitorar os votos recebidos por meio dos mapas oficiais de apuração. É aí que o cidadão de bem se vê refém do esquema.

Esse tal de poder é mesmo fascinante a ponto de envolver violência para alcançá-lo. Mas não é apenas a participação do crime organizado que ameaça a segurança das eleições. Há casos de violência entre candidatos e entre eleitores por questões ideológicas, por exemplo. Tudo isso é lamentável.