Um tiro no próprio pé
Lula está pagando pelas armadilhas que ele mesmo criou. A divisão do Ministério da Economia vai dificultar o gerenciamento global do País
O presidente Lula embarcou ontem (9) para os Estados Unidos onde se encontra, hoje (10), com o presidente norte-americano, Joe Biden. A tiracolo ele levou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. A viagem deve ajudar a arrefecer a crise instalada entre o Governo e o Banco Central.
Lula, incomodado com a última ata do Comitê de Política Monetária (Copom) e com a manutenção da Selic em 13,75%, passou a semana atacando o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Lula está inconformado com a independência do Banco Central e prepara uma série de artimanhas para tentar interferir no processo decisório da instituição.
O mercado financeiro tem reagindo muito mal às declarações de Lula e de seus aliados mais fanáticos. Ex-presidentes do BC, como Armínio Fraga e Henrique Meirelles, aliados de Lula na campanha eleitoral do ano passado, têm criticado a postura do presidente. Meirelles chegou a dizer que Lula permanece com as ideias num passado que não existe mais.
O ano de 2023 vai ser muito complicado para o Brasil. As previsões ainda são de crescimento baixo, menor de 1%, e de inflação fora da meta, o que vai exigir a manutenção das taxas de juro nas alturas. Todos esses números ruins, ao chegarmos em dezembro vão para a conta de Lula, ele goste ou não goste do resultado.
Os indicadores econômicos de janeiro mostram que a situação realmente vai ser bem complicada para o novo velho Governo. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) teve alta de 0,46% em janeiro, após uma elevação de 0,69% em dezembro, segundo dados divulgados nesta ontem, 9, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A taxa em 12 meses mostrou alta de 5,71%, ante taxa de 5,93% até dezembro. O INPC mede a variação dos preços para as famílias com renda de um a cinco salários mínimos e chefiadas por assalariados.
O Índice Nacional da Construção Civil (INCC) subiu 0,31% em janeiro, após um avanço de 0,08% em dezembro de 2022. A taxa acumulada em 12 meses foi de 10,45%. Segundo o IBGE, o custo nacional da construção passou de R$ 1.679,25 por metro quadrado em dezembro de 2022 para R$ 1.684,45 por metro quadrado em janeiro. Altas seguidas, como essa, inibem o investimento em novos projetos, num setor que costumeiramente gera milhões de empregos. Um freio extra no crescimento do País.
A inflação de janeiro, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi puxada também pelo reajuste de 0,59% dos alimentos.
Os destaques dessa alta foram os preços da batata-inglesa (14,14%), do tomate (3,89%), das frutas (3,69%) e do arroz (3,13%), itens presentes diariamente na mesa da grande maioria dos brasileiros.
A inflação dos alimentos impacta diretamente o bolso dos consumidores e gera uma sensação de insatisfação com o Governo cada vez maior. Some-se a isso a inflação dos combustíveis e a receita da catástrofe está preparada.
Os combustíveis ficaram 0,68% mais caros em janeiro. E boa parte da culpa dessa alta é do Governo que mantém uma política indefinida para o setor. Não se sabe se as desonerações serão mantidas ou não. Isso faz com que os postos, por segurança financeira, elevem os preços. Essa mudança de comportamento pode ser facilmente verificada nas bombas.
Lula está pagando pelas armadilhas que ele mesmo criou. A divisão do Ministério da Economia, antes gerido por Paulo Guedes, em várias pastas administradas por políticos de pensamento diferente, como Haddad e Simone Tebet, vai dificultar o gerenciamento global do País. Cada um vai defender, perante ao chefe, a importância de suas ideias, enquanto o Brasil fica em compasso de espera.
Só que a roda da economia não espera a vontade e o tempo do presidente. As coisas vão se atropelar cada vez mais rapidamente e depois não adianta colocar a culpa, por toda essa confusão, no presidente do Banco Central.