Um conflito sem vencedores

Segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, o mundo dirige-se, "com os olhos bem abertos", para uma "guerra mais ampla"

Por Cruzeiro do Sul

É preciso buscar um denominador comum para o fim da guerra na Ucrânia

Faltando quinze dias para a invasão russa à Ucrânia completar um ano, o cenário não é nada animador. Os conflitos estão cada vez mais intensos e violentos e os dois lados garantem estar próximos de um desfecho vitorioso. Só que a realidade não é bem essa.

A Rússia ataca sem piedade a combalida Ucrânia, que se defende com o uso de armamentos vindos de países aliados. Nas próximas semanas, novos tanques de guerra, mais modernos, devem chegar para reforçar a ofensiva do presidente Volodymyr Zelensky.

O problema é que essa ajuda internacional prometida está irritando o presidente russo. Putin tem prometido contra-atacar aqueles que fornecerem armamentos para os ucranianos.

Segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, o mundo dirige-se, "com os olhos bem abertos", para uma "guerra mais ampla" ante os crescentes "riscos de escalada" na Ucrânia. O alerta foi feito na segunda-feira (6), na Assembleia Geral da organização.

"Começamos 2023 de olho em uma convergência de desafios nunca vista em nossas vidas", disse Guterres aos seus pares logo depois de pedir um minuto de silêncio pelas vítimas do terremoto que devastou a Turquia e a Síria. Em seu discurso, Guterres lembrou que para os cientistas que vigiam o chamado Relógio do Juízo Final, a humanidade nunca esteve tão perto do fim.

"Precisamos acordar e começar a trabalhar", implorou o secretário-geral que, em seguida, enumerou os temas que considera urgentes para o ano de 2023. No topo da lista dele está a guerra na Ucrânia.

"As perspectivas de paz não param de diminuir. Os riscos de uma escalada e de mais uma carnificina não param de aumentar", disse Guterres. "Temo que o mundo esteja caminhando, sonâmbulo, para uma guerra mais ampla. Temo o que está fazendo com os olhos bem abertos. Se todos os países cumprissem as obrigações que emanam da Carta (das Nações Unidas), o direito à paz estaria garantido", insistiu.

Em termos mais gerais, Guterres denunciou a falta de uma "visão estratégica" e "o viés" imediatista dos dirigentes de alguns países que preferem colocar os ganhos políticos imediatos à frente de uma estratégia de paz duradoura a longo e médio prazos. No foco dessa questão, está a imensa vontade de alguns países em derrubar o presidente Putin.

Os Estados Unidos, por exemplo, não têm medido esforços para ajudar com dinheiro e armas a guerra da Ucrânia. O objetivo principal do presidente norte-americano, Joe Biden, não é a busca por uma solução negociada e sim instigar a Ucrânia a prolongar a guerra, obrigando a Rússia a gastar boa parte de seus recursos financeiros, bélicos e cansando seu exército. Com os russos enfraquecidos, fica mais fácil para os Estados Unidos darem as cartas num futuro próximo.

O problema é que a Rússia demonstra, sempre que pode, não estar só. Putin, várias vezes durante o conflito, apresentou-se ao lado dos dirigentes máximos da Índia e da China, potências que se unidas são capazes de fazer frente aos americanos.

Enquanto isso, nos salões da ONU, parece que só o presidente Guterres tem a percepção correta da atual situação global. Ele já entendeu que o conflito entre russos e ucranianos está causando problemas para o mundo todo. A alta no preço dos alimentos, da energia e dos combustíveis são apenas a ponta do iceberg que percorre descontrolado os mares revoltos da geopolítica planetária.

Se as autoridades com real poder de decisão não entenderem o recado do secretário-geral, muito em breve, o mundo estará mergulhado numa crise poucas vezes vista.

É preciso buscar um denominador comum para o fim da guerra na Ucrânia. Decorrido quase um ano da invasão, só se tem uma certeza, ninguém saiu vencedor. Os ucranianos estão com seu território devastado, os russos não conseguiram atingir o objetivo de mostrar sua força internacional, a Otan apresentou todas as suas fragilidades e a economia mundial sucumbiu diante da dependência dos grãos, dos fertilizantes, do petróleo e do gás russos. Se essa realidade não for compreendida, mais perdedores surgirão no caminho dessa guerra inútil.