Ninguém pode ser abandonado
Só uma atitude de muito desespero faz com que uma pessoa se sujeite a morar na rua, sem teto, sem comida, sem a menor condição de higiene
O vício em álcool e drogas, o abandono familiar, as doenças mentais e o desemprego acabam empurrando para as ruas milhares de pessoas em todo o país. São cidadãos que perderam boa parte da sua dignidade, da capacidade de lutar e que se sujeitam a viver em condições sub-humanas, num processo onde a recuperação fica cada vez mais difícil.
Esse tipo de situação pode acometer qualquer um: médicos, dentistas, professores, engenheiros, operários. As armadilhas da droga, do álcool e da mente tem a capacidade de roubar da sociedade qualquer, de qualquer família, não importa sequer o nível de educação.
É importante para a sociedade conseguir resgatar esses cidadãos e devolver a eles um pouco da dignidade perdida com o passar dos anos. O trabalho é difícil e exige muita perseverança. Mas cada vitória, cada resgate, deve ser comemorado.
Criado há dois anos, o programa HumanizAção, da Prefeitura de Sorocaba, tem prestado um excelente trabalho para a comunidade. Só em 2021 e 2022, foram realizadas mais de 20 mil abordagens a pessoas que vivem em situação de rua. Essas abordagens resultaram em mais de 16 mil oportunidades de acolhimento no Serviço de Obras Sociais (SOS), que oferece alimentação completa, banho, toalhas e roupas limpas, além de alojamento para o pernoite a essas pessoas. Esse programa ainda ajudou cerca de 3 mil pessoas a retornar ao lar de origem, seja em Sorocaba ou em outros municípios.
Toda noite, os integrantes do programa HumanizAção circulam pelas ruas da cidade na tentativa de convencer quem mora na rua a buscar uma vida melhor. É um trabalho de muita paciência e de convencimento que requer, principalmente, uma boa dose de empatia. Só ganhando a confiança de quem se pretende ajudar é que podem as barreiras que separam os dois lados da questão.
Em reportagem publicada na edição de domingo (5), do jornal Cruzeiro do Sul, duas histórias mereceram destaque para exemplificar o trabalho desse programa. Uma delas do senhor José, de 64 anos, que por quase 20 anos viveu nas ruas do Centro de Sorocaba. Ele foi um dos primeiros casos atendidos pelo “HumanizAção”, no início de 2021. Após vários contatos e tentativas, o senhor José aceitou ser encaminhado para uma residência terapêutica, deixando de perambular pelas ruas, sem perspectiva. Hoje, seu Zé fica feliz em exibir a cama confortável e o guarda-roupa cuidadosamente organizado, uma realidade que há muito tempo ele não vivia.
Uma vitória mais recente do programa HumanizAção foi convencer a jovem Maria Eduarda, de 18 anos, a deixar as ruas e aceitar um tratamento contra a dependência química. Ela deixou a barraca improvisada onde morava numa rua da Vila Hortencia para receber uma vaga na unidade feminina do Grupo de Apoio e Combate a Droga e Álcool Santo Antônio (Grasa), que atua em parceria com a Prefeitura de Sorocaba.
Em seu depoimento, Maria Eduarda contou que começou a usar drogas com 12 anos, por influência de um ex-namorado. Ele era bem mais velho que ela e insistia no consumo de drogas. Maria Eduarda tentou resistir no início mais acabou sucumbindo ao vício. Da maconha ao crack foi um pulinho. O vício se tornou cada vez mais forte o que rendeu a Maria Eduarda um período da Fundação Casa, por ser cúmplice de crimes cometidos pelo ex-namorado. Agora, com a oportunidade de se recuperar do vício, a jovem já sonha com uma vida melhor e até em recuperar a guarda do filho que teve durante esse período e que foi encaminhado ao Conselho Tutelar.
Só uma atitude de muito desespero faz com que uma pessoa se sujeite a morar na rua, sem teto, sem comida, sem a menor condição de higiene. Quando isso acontece, todos os limites da cidadania foram quebrados e é hora da sociedade se unir para ajudar a resgatar esse indivíduo. O processo é longo, cheio de recaídas e nem sempre atinge seu objetivo. O que não podemos é abandonar nossos irmãos que, por um motivo ou outro, foram empurrados para o abismo do dependência química ou que foram traídos pelo própria mente que acabou criando um mundo que, infelizmente, ainda não conseguimos compreender.