Os rumos do Vaticano
Bento XVI deixa um legado de luta pela manutenção das tradições da igreja. Parte sendo considerado um dos maiores estudiosos da religião nos tempos modernos
Os católicos se despediram, ontem (5), do papa emérito Bento XVI. Joseph Ratzinger, seu nome de batismo na Alemanha, faleceu no sábado (31) aos 95 anos. Bento XVI passa para a história da igreja após ter renunciado ao trono de Pedro em 2013, depois de um pontificado marcado por escândalos e intrigas.
Ratzinger assumiu o cargo com a difícil missão de substituir João Paulo II, de quem havia sido braço direito por um quarto de século como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício da Inquisição. Na década de 1960, trabalhou com uma série de grupos que estudavam formas de modernizar e renovar a Igreja. Seu lado conservador acabou falando mais forte e acabou se tornando um dos líderes no combate ao avanço da “Teologia da Libertação” na América Latina.
Ao ser eleito, em 2005, lançou uma ofensiva mundial contra o aborto, a eutanásia e a legalização das uniões homossexuais. Com unhas e dentes, lutou para a manutenção de algumas posições consideradas sagradas para a igreja e não se cansou de denunciar as tentações do mundo moderno.
Logo no início de seu mandato, publicou documento que incentivava as missas rezadas em latim, proibida anos depois pelo papa Francisco. A atitude do seu sucessor, deixou Bento XVI bastante incomodado e triste, revelam seus biógrafos.
O papa emérito teve papel importante também no combate à pedofilia dentro da Igreja Católica. Diante de uma torrente de denúncias de abusos sexuais de menores cometidos por religiosos católicos em vários países, Bento XVI tomou a decisão de pedir perdão, defendeu a “tolerância zero” com os abusadores e procurou se reunir com as famílias das vítimas.
Mas esse não foi o único obstáculo do pontificado de Bento XVI. Em 2012, ele teve que enfrentar o escândalo batizado de “Vatileaks”. Documentos confidenciais foram vazados, revelando intrigas e as divisões dentro da Cúria e do próprio Vaticano.
A idade avançada e o acúmulo de dissabores foram afetando a saúde do papa emérito. Segundo relatos de jornalistas italianos especializados em acompanhar o dia a dia do Vaticano, três cardeais escolhidos pelo próprio papa ficaram responsáveis por investigar os vazamentos. O relatório secreto apresentado por eles reforçou a ideia de que era necessário alguém mais jovem, forte e enérgico para fazer uma limpeza profunda na instituição milenar.
Sem forças para liderar a igreja, ele decidiu, em 28 de fevereiro de 2013, comunicar sua renúncia, a primeira de um papa em seis séculos. Falando em latim, Bento XVI anunciou a decisão aos cardeais que ficaram perplexos. A situação pouco vista na Igreja Católica mexeria com os rumos do Vaticano.
Depois da renúncia, Bento XVI prometeu se retirar e não interferir no mandato e nas decisões de seu sucessor, o papa Francisco. Mesmo assim, a sua simples existência era suficiente para manter forte os ideais conservadores de uma grande ala da igreja.
Diante de milhares de fiéis, o papa Francisco se despediu do antecessor. Em missa realizada na praça São Pedro, Francisco destacou a entrega contínua de Bento XVI em favor das causas da igreja e na defesa do nome do Pai. “Mãos de perdão e compaixão, de cura e misericórdia, mãos de unção e de bênção”, disse o papa ao encerrar sua homenagem.
Bento XVI deixa um legado de luta pela manutenção das tradições da igreja. Parte sendo considerado um dos maiores estudiosos da religião nos tempos modernos. Antes mesmo de seu sepultamento, um coro de fiéis já pedia a sua santificação.
Em seu testamento espiritual, divulgado agora, Bento XVI diz: “São pelo menos 60 anos que acompanho o caminho da Teologia, em especial das Ciências Bíblicas, e com o subseguir-se das várias gerações vi ruir teses que pareciam inabaláveis, demonstrando-se serem simples hipóteses: a geração liberal (Harnack, Jülicher, etc.), a geração existencialista (Bultmann, etc.), a geração marxista.
Vi e vejo como do emaranhado das hipóteses tenha emergido e emerja novamente a razoabilidade da fé. Jesus Cristo é realmente o caminho, a verdade e a vida -- e a Igreja, com todas as suas insuficiências, é realmente o Seu corpo”.
A Igreja Católica passa a viver, agora, um novo momento. Uma fase que vai exigir de Francisco uma capacidade de negociação muito maior do que a necessária até hoje. Os desafios do papa não são poucos.