O canto forte das ruas
Nossa torcida agora é que o Brasil realmente seja indestrutível (...) E que a voz de quem está nas ruas soe mais forte
“Eu sei que tudo vai ficar bem. E as minhas lágrimas vão secar. Eu sei que tudo vai ficar bem. E essas feridas vão se curar. O que me impede de sorrir é tudo que eu já perdi. Eu fechei os olhos e pedi para, quando abrir, a dor não estar aqui. Mas sei que não é fácil assim. Mas vou aprender no fim. Minhas mãos se unem para que tirem do meu peito o que é de ruim. E vou dizendo, tudo vai ficar bem”. Pensamentos parecidos com esse percorrem a mente de milhões de brasileiros inconformados não só com o resultado das eleições, mas com a maneira que todo o processo eleitoral se desenrolou.
Há um mês essas pessoas tomaram as ruas de Norte a Sul demonstrando indignação com a decisão que saiu das urnas e temerosas com o futuro que está reservado ao País nos próximos quatro anos. São brasileiros que abriram mão do trabalho, da família, da saúde, para lutar, sob chuva e sol, por uma Nação melhor, livre da corrupção e com as liberdades individuais garantidas.
E são poucos os indícios de que a voz das ruas esteja errada. O que se tem visto, nos primeiros momentos da equipe de transição escolhida pelo futuro presidente, é de arrepiar. A sanha por dinheiro livre para gastar à vontade, fora das amarras do Orçamento, é impressionante. São centenas de bilhões e mais centenas de bilhões que estão sendo negociados com o Congresso Nacional. O troca-troca de favores, em Brasília, começou muito antes da posse e sequer da diplomação do presidente eleito.
Deputados e senadores, com poucas exceções, fingem ter o controle da situação para reduzir o impacto de toda essa gastança no bolso dos brasileiros, mas o que querem, na verdade, é ganhar tempo para conquistar benefícios extras para eles mesmos.
Um dos temas que mais mexem com essa negociação é a manutenção das emendas do relator do Orçamento. O Congresso quer garantias que o dinheiro reservado para os parlamentares será mantido e liberado, sem restrições. O que, de cara, vai contra o discurso de campanha do presidente eleito que, o tempo todo, execrava esse tipo de distribuição de recursos públicos batizada pela imprensa de “orçamento secreto”.
Só que para garantir dinheiro livre para o novo governo, qualquer acordo acaba sendo aceito. Outro entrave nessa negociação está no prazo de validade desse cheque em branco pedido pelo PT. O partido do presidente eleito quer que o dinheiro para programas sociais fique fora do teto do orçamento por quatro anos. O Senado pretende autorizar só dois. Isso faz com o que o Congresso mantenha em suas mãos o poder de barganha que sempre lhe é tão caro.
Os senadores tratam essa negociação com tanto carinho que o próprio presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Casa, Davi Alcolumbre, se escolheu como relator e negociador das bases desse acordo. É ele também o encarregado de distribuir, no Senado, as verbas das emendas do relator.
Ao mesmo tempo que essas negociações ocorrem nos bastidores em Brasília, o presidente eleito não esconde seu prazer em viajar para cima e para baixo em jatos executivos caros, emprestados por amigos de reputação nem sempre republicana. Foi assim na viagem para o Egito e mais recentemente no deslocamento de São Paulo para Brasília. O gosto por hotéis caros parece ser também um dos novos prazeres do futuro mandatário do País.
O processo de transição segue com a escolha da vários membros da nova equipe que tem em seus currículos mais passagens pela Justiça do que bons serviços prestados à Nação. Ao mesmo tempo, uma legião de derrotados nas urnas pela vontade popular, também busca uma boquinha na nova administração.
Isso tudo somado não dá muita esperança a quem está há um mês nas ruas protestando. Nenhum sinal de que o Brasil vai melhorar foi demonstrado até agora. Só acordos políticos do pior tipo possível.
Os nomes dos ministros que vão administrar o País ainda não foram anunciados. Preocupação maior parece ter o novo governo com a festa da posse. A futura primeira-dama gastou um tempo precioso, na quarta-feira (30), anunciando uma série de artistas que farão o show.
Entre essas estrelas escolhidas a dedo está Pablo Vittar, que canta a música “Indestrutível” cujos versos abriram esse texto. A nossa torcida agora é que o Brasil realmente seja indestrutível e que todo o mal que se avizinha seja evitado. E que a voz de quem está nas ruas soe mais forte que o canto esganiçado de algumas estrelas cadentes.