Lixo eletrônico ameaça o planeta

São as "miudezas" somadas para compor os apetrechos tão triviais no nosso cotidiano que devem merecer o temor de governantes, populações e empresas

Por Cruzeiro do Sul

Lixo eletrônico, pilhas, baterias

Para muitas pessoas e empresas, substituir periodicamente os smartphones, tablets, notebooks, aparelhos de TV e consoles de videogames, entre tantos aparelhos eletrônicos que fazem parte do dia a dia contemporâneo, tornou-se um hábito necessário. Deixou de ser um simples sonho de consumo para se transformar em upgrade indispensável. O fenômeno, inicialmente restrito a países desenvolvidos, se expande rapidamente a todos os quadrantes do planeta, impulsionado pela globalização, conduzido pelo giro cada vez mais célere da economia e, por fim, condicionado às estratégias de concorrência entre fabricantes. Como todos os processos artificiais, no entanto, esse também vem acompanhado de efeitos colaterais. Neste caso, os efeitos chegam, literalmente, no formato de montanhas de lixo.

Um estudo desenvolvido pela Universidade das Nações Unidas, em parceria com a União Internacional de Telecomunicações, revelou que cerca de 53 milhões de toneladas de lixo eletrônico foram descartadas em todos os continentes apenas em 2020. A estimativa para este ano é de que o volume atinja 60 milhões de toneladas. Algumas comparações podem dar uma ideia da proporção real do problema: devidamente organizados e acondicionados, os computadores, celulares, televisores e demais equipamentos eletrônicos desativados em 2022 equivalem a cerca de 11 pirâmides de Quéops, a maior das milenares estruturas da Planície de Gizé, no Egito. O mesmo material seria suficiente para construir 6 mil torres Eiffel ou, ainda, para construir duas passarelas ligando Nova York (EUA) a Bangkok, na Tailândia.

A despeito das cifras colossais, na verdade, são as “miudezas” somadas para compor os apetrechos tão triviais no nosso cotidiano que devem merecer o temor de governantes, populações e empresas. Notebooks e smartphones -- com placas de circuito impresso, carregadores, baterias e acessórios --, por exemplo, são constituídos por quase todos os 118 elementos químicos naturais e artificiais da tabela periódica. Esse amálgama inclui desde ouro, prata, platina, cobre, alumínio e outros metais com alto valor de mercado, até produtos extremamente tóxicos, como antimônio, arsênio, berílio, bismuto, cadmio, chumbo e mercúrio, entre outros. A lista ainda inclui até mesmo as terras-raras -- assim denominadas, por conta da extração extremamente difícil e cara --, como lantânio, térbio, neodímio, gadolínio e praseodímio. Isso sem falar em incontáveis tipos de plásticos e vidro.

Sintetizando: um “simples” celular, do qual não nos separamos em nenhum momento, o notebook -- agora, instrumento de trabalho de milhões de pessoas --, ou a smart TV, que nos serve como companhia/recreação e para assistir a Copa do Catar, estão impregnadas de “riquezas” e, ao mesmo tempo, de substâncias que, se não descartas da maneira correta, representam, sim, um enorme risco em potencial à saúde do planeta e dos seres humanos.

A boa notícia é que, também nesta encruzilhada, a humanidade já se mostrou capaz de achar caminhos seguros. Numa clara demonstração de que os homens criam as ferramentas e as ferramentas realmente recriam os homens -- como defendia o pensador das mídias Herbert Marshall McLuhan --, podemos lançar mão da logística reversa, da reciclagem e da metarreciclagem como formas de reaproveitar com segurança os descartes eletrônicos -- garantindo a sustentabilidade dos recursos naturais --, ao mesmo tempo em que evitamos riscos à saúde das pessoas e a degradação do meio ambiente.

Embora ainda carentes de políticas públicas abrangentes, planejamentos macro e microrregionais, recursos e, principalmente, engajamento de muitos setores da sociedade, esses três métodos já são utilizados em nosso País. Em alguns setores -- reciclagem de latinhas de alumínio e logística reversa de embalagens de agrotóxicos, por exemplo -- o Brasil figura como referência mundial.

Em Sorocaba, a metarreciclagem de equipamentos eletrônicos é uma experiência que já apresenta resultados positivos. Iniciada há pouco mais de uma década, por incentivo da administração municipal, o modelo vem crescendo e evoluindo, alicerçada em consórcios com a iniciativa privada e movimentos cooperativos. O diferencial da metodologia é a extensão do conceito da reciclagem à tecnologia inserida no objeto. Na prática, além da destinação ecologicamente correta dos materiais que entram na composição dos equipamentos, os procedimentos conferem sobrevida aos aparelhos, na medida em que podem, em alguns casos, ser recuperados para continuarem sendo utilizados.

Atualmente, a Prefeitura de Sorocaba desenvolve projetos em parceria com duas cooperativas. A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo (Sedettur), com a colaboração da Cooperativa de Trabalho Social de Egressos e Familiares de Egressos de Sorocaba e Região (Coopereso), faz a coleta de computadores, ventiladores, aparelhos de TV, eletrodomésticos, pilhas, baterias, entre outros, com o objetivo de reaproveitar o maior número de componentes para a montagem de kits de informática que são doados a entidades.

Outra proposta em andamento no município é coordenada pela Secretaria de Serviços Públicos e Obras (Serpo) e executada pela Cooperativa de Reciclagem de Sorocaba (Coreso). A instituição recolhe e também recebe em seus barracões todos os tipos de produtos eletroeletrônicos, com exceção de lâmpadas, pilhas e baterias. Os materiais são separados e vendidos para empresas, gerando renda para muitas famílias e permitindo a reutilização na produção de diversos componentes industriais. Além disso, o município dispõe de outros locais para receber descartes de equipamentos elétricos e eletrônicos, como o Ecoponto inaugurado em 17 de novembro -- na rua Lourenço Molinero, Vila Isabel -- e a sede da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade, na Vila Hortência.

Quem se preocupa com a qualidade de vida das futuras gerações não precisa abrir mão da indispensável atualização dos equipamentos essenciais no cotidiano, precisa apenas descartar corretamente aqueles que já não utiliza mais. Além dos filhos e netos, o planeta também vai agradecer.