Radicalismo fora de hora
Todos os habitantes do mundo devem lutar para que a sociedade como um todo melhore, mas esse tipo de atitude radical em nada contribui
O mundo, desde que é mundo, convive com protestos e manifestações. Sempre que um indivíduo ou grupo se sente prejudicado, toma as ruas para mostrar a sua indignação. Alguns desses movimentos cresceram tanto que levaram reis e rainhas para a guilhotina, derrubaram regimes totalitários e garantiram conquistas para toda a sociedade. Outros, no entanto, se mostraram pífias atitudes de desrespeito contra a história da humanidade.
Entre esses movimentos caricatos, está a atitude de alguns jovens em atentar contra obras de arte em museus. Os inocentes úteis, guiados por mãos mal intencionadas, passam a vergonha de ser presos após atirar sopa e tinta em quadros, se colar na moldura de obras de inestimável valor, uma bobagem sem limites só para chamar a atenção.
O problema é que esse tipo de ato mais provoca indignação e repulsa do que apoio popular. Ninguém, em sã consciência, quer ver destruídas pinturas de Van Gogh, de Goya, de Monet, de Leonardo da Vinci, de nenhum artista que tenha sido alçado ao panteão dos imortais.
Infelizmente, ao que tudo indica, esses tipos de protestos inúteis não devem acabar tão cedo. Os grupos “Just Stop Oil” no Reino Unido, “Ultima Generazione” na Itália ou “Dernière Rénovation” na França, ou ainda integrantes da Rede A22, presente em onze países ocidentais e financiada pelo Climate Emergency Fund, estão apostando na intensificação desse tipo de ação.
No dia 5 de novembro, por exemplo, dois militantes colaram suas mãos em pinturas de Goya, em Madri, e pintaram “+1,5ºC” na parede, referindo-se à meta de aquecimento global estabelecida pela comunidade internacional.
No início de novembro, dois ativistas do grupo “Last Generation” jogaram purê de batatas no vidro que protegia a pintura de Claude Monet “Les Meules” no Museu Barberini em Potsdam, Alemanha. Ativistas ambientais também se colaram no vidro que protege “Moça com Brinco de Pérola” de Johannes Vermeer em um museu na Holanda e outros jogaram sopa no que protege os “Girassóis” de Vincent van Gogh na National Gallery em Londres. Em Roma, os abilolados jogaram sopa em uma obra de Van Gogh também protegida por vidro.
Os protestos não são restritos aos museus. Em Paris, uma dúzia de militantes do Dernière Rénovation bloquearam o trânsito perto do Ministério da Economia, enquanto em Toulouse outros ativistas do grupo interromperam um jogo do torneio francês de rugby por cerca de dez minutos, amarrando-se aos gols. Já no aeroporto Schiphol de Amsterdã, ativistas bloquearam a área de estacionamento de aviões particulares por três horas.
Essas ações estão longe de ter apoio unânime, mesmo no campo ambiental. “O clima merece mais do que esta caricatura idiota”, reagiu o ex-candidato ecologista francês Yannick Jadot, após um ataque com sopa ao quadro “Girassóis” de Van Gogh.
“Há tantas pessoas tentando desacreditar a luta contra as mudanças climáticas, por que quer dar a elas mais munição?”, perguntou o cientista político belga François Gemenne. O acadêmico, que contribuiu para a produção de vários relatórios científicos da ONU sobre clima, pediu mudanças nas ações e considerou o ataque às obras de arte como “catastróficas” para o ideal do movimento.
Infelizmente esse tipo de atitude insana tende a se espalhar pelo mundo. É óbvio que esses grupos extremistas mais organizados se preparam estrategicamente para cada ação. Eles só atacam obras protegidas e não se arriscam a destruir, de fato, nenhum quadro. Pela tranquilidade como executam alguns dos atos, o protesto deve até ser negociado com as equipes de segurança dos museus.
O problema é que esse tipo de atitude se espalha como rastilho de pólvora. Daqui a pouco, outros jovens menos preparados vão tentar repetir esse tipo de “gracinha” e a perda para a humanidade será irreparável.
Todos os habitantes do mundo devem lutar para que a sociedade como um todo melhore, mas esse tipo de atitude radical em nada contribui com esse propósito. Atirar sopa em quadros não vai transformar o pensamento da maioria dos líderes mundiais. É necessário usar um pouco mais de inteligência e convencimento para mudar as coisas. O caminho para se conquistar apoios à causa ambiental, com certeza, passa pela empatia e não pela afronta