Nossas crianças merecem um dia de reflexão
É fácil defender uma gama de novos direitos sem se preocupar com os deveres que deixam de ser cumpridos em detrimento de tanta liberdade de escolha
O Brasil ficou dividido no feriado de 12 de outubro. Enquanto a maior parte da população católica celebrava o Dia de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, uma outra se divertia com os festejos do Dia da Criança.
No Santuário dedicado à Santa, em Aparecida -- interior de São Paulo --, mais de cem mil pessoas compareceram para professar a sua fé, pagar promessas e agradecer pedidos alcançados. Em Aparecidinha, aqui em Sorocaba, milhares de pessoas tiraram o dia para orar e expressar a sua fé. Com o fim da pandemia e das restrições impostas pela Covid-19, os festejos em memória de Nossa Senhora Aparecida retornaram aos padrões pré-pandemia.
Mas o feriado não foi dedicado só à religião. Milhões de crianças festejaram o seu dia com muita brincadeira e diversão. Os presentes também foram destaque, gerando não só a satisfação dos pequeninos como também ajudando a girar a roda da economia.
O Dia das Crianças foi instituído há quase cem anos, pelo Decreto nº 4.867 de 1924. De cara, a data comercial não foi muito bem recebida pela população. Só decolou, efetivamente, depois que as indústrias de brinquedo tomaram para si o trabalho de popularizar a data com o objetivo de ampliar as vendas.
A data rivaliza com o Dia Mundial das Crianças, comemorado em 20 de novembro, data essa reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Naquele dia, foram aprovadas tanto a Declaração Universal dos Direitos da Criança, em 1959, quanto a Convenção Sobre os Direitos da Criança, em 1989.
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a data tem o objetivo de aumentar “a conscientização em relação aos milhões de crianças que têm negados seus direitos a cuidados adequados de saúde, nutrição, educação e proteção, e elevar as vozes dos jovens como fundamentais para qualquer discussão sobre seu futuro”.
O Dia das Crianças, especialmente este ano, merece toda a nossa atenção. É hora da comunidade refletir sobre uma série de mudanças que têm sido propostas por alas que se autodenominam progressistas e que podem afetar o futuro de toda uma geração. São temas polêmicos como a legalização do aborto, a identidade de gênero, a linguagem neutra, a liberação do uso e drogas, o uso compartilhado de banheiros e muito mais.
Infelizmente, muitos pais têm esquecido o seu papel fundamental de educadores e de protetores das vidas por eles geradas. Com a desculpa de garantir a liberdade futura de decisão dos filhos, abrem mão de orientar as crianças de maneira adequada já ainda em tenra idade. Esse tipo de atitude covarde, contaminada por ideologias absurdas, privam as crianças de assumir o papel que a própria natureza designou para elas.
Temos criado uma geração que teme tomar decisões e que foge da responsabilidade ao primeiro obstáculo. Uma geração que depende, cada vez mais, de auxílio psicológico por não conseguir enfrentar o mundo real. Uma geração que não foi preparada para viver em comunidade.
É preciso reagir. Entender que nossos filhos precisam de carinho, de conforto, mas também das cicatrizes do aprendizado. Essas marcas ajudam a fortalecer o caráter e criar cidadãos que realmente possam contribuir com a sociedade. O mundo não precisa de pessoas egoístas que colocam sempre o seu bem-estar em primeiro lugar.
É fácil defender uma gama de novos direitos sem se preocupar com os deveres que deixam de ser cumpridos em detrimento de tanta liberdade de escolha. No caso do aborto, por exemplo, muitos teóricos defendem o direito total da mulher sobre seu corpo e que só ela poderia decidir se quer ou não gerar uma nova vida. Só que essa postura esbarra no direito do ser gerado, que será, em muitos casos, cruelmente assassinado. A mulher deve ter sim o direito da escolha, mas esse direito deve ser implementado num programa de educação consistente que permita que ela evite a gravidez antes da concepção. Métodos não faltam para isso. Esse tipo de responsabilidade deve sim ser cobrado também da mulher. Quando ela abre mão dessa prerrogativa, as consequências precisam ser aceitas. Fica muito fácil transformar o corpo numa máquina de produção ilimitada de fetos escorado na garantia do aborto livre, amplo e legal. Todo direito deve vir acompanhado de deveres.
Nesse momento de fé, dedicado a Nossa Senhora Aparecida, precisamos de muitas orações para que possamos recuperar o bom caminho da sociedade, livres dos pregadores do caos e da confusão. E que nossas crianças não se tornem experimentos nas mãos de filósofos despreparados, sem compromisso com a família.