Ponto de equilíbrio para o teletrabalho
À medida que novos sistemas sejam desenvolvidos e novas regras criadas, mais e mais gente vai acabar trabalhando à distância
A pandemia fez muita gente trocar o escritório pelo conforto do lar. Com a necessidade do isolamento e do “fique em casa”, as empresas autorizaram que seus funcionários trabalhassem remotamente.
No início as coisas foram meio improvisadas. Não se tinha a dimensão de quanto tempo duraria esse afastamento. E lá se foram praticamente dois anos. Aos poucos, empregados e empresas foram se adaptando, melhorando as condições de trabalho, novos sistemas e fluxos foram criados e as reuniões se tornaram virtuais.
Nesse período teve gente que trocou de cidade, deixando a capital por uma vida mais tranquila no litoral e no interior. Alguns, por necessidade de mais espaço, precisaram alugar apartamentos maiores, com melhor estrutura que permitisse passar o dia com a família em casa sem que isso prejudicasse seu desempenho profissional.
Quando a pandemia perdeu força e chegou a hora de voltar para o escritório, a situação ficou difícil e alguns profissionais optaram por mudar de empresa e até de função.
Esse movimento, adotado pela necessidade de isolamento, gerou até estudos científicos. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no Brasil, aproximadamente uma a cada quatro pessoas poderia trabalhar de forma remota. Isso equivale a 20,4 milhões de pessoas, que representam 24,1% do total da população ocupada no País.
O estudo mostra ainda que, a maior parte dos trabalhadores que poderiam desenvolver as atividades de forma remota é mulher (58,3%); branca (60%); com nível superior completo (62,6%); e tem idade entre 20 e 49 anos (71,8%).
Mais da metade desses trabalhadores em teletrabalho potencial encontra-se na região Sudeste, aproximadamente 10,5 milhões. Na região Sul estão 3,6 milhões; no Nordeste, 3,5 milhões; e, no Centro-Oeste, 1,7 milhão. Essas pessoas estão prioritariamente em áreas urbanas. No entanto, segundo o Ipea, há cerca de 650 mil pessoas em teletrabalho potencial no campo, o que corresponde a 6,4% do total de ocupados na zona rural.
O Ipea também estimou a massa de rendimentos dos trabalhadores e constatou que, o rendimento efetivo das pessoas ocupadas, no geral, consideradas na Pnad, supera os rendimentos habituais. Ou seja, o que os trabalhadores receberam de fato pelo trabalho, no período considerado, foi maior do que o que costumam receber. Consideradas apenas as pessoas em teletrabalho potencial, o rendimento efetivo supera o habitual em 9%. Segundo o Ipea, as pessoas em teletrabalho potencial, juntas, são responsáveis por cerca de 40% do total de rendimentos no Brasil.
O Instituto esclarece, em seu levantamento, que não existem dados oficiais de quantas pessoas no Brasil trabalham remotamente. Por isso, utilizou, no estudo, as atividades que poderiam ser realizadas em teletrabalho.
Como critério foi considerado, por exemplo, se os trabalhadores possuem ou não condições de realizar as tarefas em teletrabalho e se há fatores na realização do trabalho de forma remota que podem aumentar a produtividade.
O que se conclui, ao certo, é que o trabalho remoto veio para ficar. O Governo Federal já editou normas regulamentando a forma como o servidor público poderá ser utilizado nessa nova realidade. Empresas de vários segmentos também decidiram manter parte de seus empregados em casa. Outras optaram por um modelo híbrido, parte presencial, parte remota.
À medida que novos sistemas sejam desenvolvidos e novas regras criadas, mais e mais gente vai acabar trabalhando à distância. Nesse processo se ganha com o aumento do convívio familiar, com a redução do tempo no trânsito e com uma alimentação mais controlada e saudável dentro da própria casa.
Outras coisas irão se perder. A troca de experiências entre os profissionais vai diminuir, assim como a interação. Os círculos de amizade ficarão mais restritos. E no longo prazo isso pode afetar a saúde mental de quem optar pelo excesso de confinamento.
O caminho é encontrar o equilíbrio entre o trabalho remoto e o modelo tradicional, presencial. Isso feito, a sociedade poderá colher avanços significativos tanto na área de infraestrutura das cidades como também no modo de cada um se relacionar com o outro.