O desvio de cargas e o crime organizado
Em todas as grandes cidades do Brasil existem feirões de mercadoria que vendem toneladas de produtos roubados
Os ditados populares são frases ou expressões passadas de geração em geração. Elas transmitem o conhecimento adquirido pela sociedade por décadas. E esse tipo de sabedoria nos ajuda a escapar de uma série de enrascadas.
Um desses ditos bastante conhecidos é “Quando a esmola é muita, o santo desconfia”. Numa interpretação livre podemos chegar à conclusão que quando alguém te oferecer uma coisa que parece muito boa, fora da realidade de mercado, desconfie. Com certeza algum problema existe.
Foi o que aconteceu na zona norte de Sorocaba. A Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) apreendeu mais de 7 mil garrafas de bebidas em supermercados. Segundo a polícia, as bebidas, sucos e vinhos, fariam parte de um golpe ocorrido em São Paulo. O estelionatário teria comprado de um fabricante um lote de produtos. Recebeu, não pagou e sumiu. Enquanto o vendedor tentava recuperar o que lhe era devido, o golpista revendia as bebidas para supermercados do interior. Como não pagou nada pelo produto, oferecia a preços bem menores para os novos compradores. Foi o próprio representante da marca que descobriu a farsa e avisou a polícia. Como os produtos eram vendidos bem abaixo do preço, foi fácil constatar o problema. O delegado encarregado do caso está agora à procura do estelionatário.
E esse não é o único tipo de golpe que atinge o comércio. O número de roubo de cargas tem subido nos últimos meses.
Em Limeira, por exemplo, a Guarda Civil Municipal e a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) recuperaram, na segunda-feira (25), um caminhão roubado no município de Pedreira. A carga de laticínios estava avaliada em R$ 55 mil. Segundo as investigações, após o roubo, o motorista foi abandonado em Nazaré Paulista (SP).
Um levantamento feito pela Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) mostra que os roubos de carga cresceram 1,7% no País em 2021. No total, o prejuízo financeiro atingiu a marca de R$ 1,27 bilhão. A região Sudeste foi a que registrou o maior número de ocorrências com 82% dos casos. Para Roberto Mira, vice-presidente de segurança da NTC&Logística, o aumento de roubos se deve, em boa parte, ao retorno da atividade econômica, prejudicada por conta de dois anos de pandemia. “A volta das atividades inevitavelmente aumentaria o fluxo de mercadorias nas rodovias e, por consequência, dos roubos e dos furtos de carga. Sobretudo com a inflação elevada, por causa de fatores internos e externos, certos produtos ficaram muito valiosos e atrativos para os grupos organizados”, explicou Mira.
De acordo com a pesquisa, as mercadorias mais visadas pelas quadrilhas e pelos grupos criminosos são alimentos, combustíveis, produtos farmacêuticos, autopeças, materiais do setor de têxteis e de confecção, cigarros, eletroeletrônicos, bebidas e defensivos agrícolas.
São produtos que podem ser distribuídos facilmente. E que geram dinheiro rápido aos contraventores. Como as mercadorias são roubadas e precisam circular rapidamente, o preço de venda desaba. O consumidor, tentado pela oferta, acaba cedendo e adquirindo produtos de origem ilegal.
Segundo o professor José Ricardo Bandeira, perito em Criminalística e especialista em Segurança Pública, em todas as grandes cidades do Brasil existem feirões de mercadoria que realizam a venda no varejo de toneladas de produtos roubados. Essas feiras já são conhecidas não só da polícia como também por grande parte da população, causando prejuízos milionários ao setor e inacreditavelmente funcionam em data, hora e local fixos.
“Paralelamente a essas feiras existe uma grande quantidade de comerciantes que possuem estabelecimentos informais nas comunidades que efetuam a venda de mercadorias e produtos roubados, a preços muito inferiores aos praticados no comércio legal. Como esses ‘comércios‘ estão em zonas dominadas pelo tráfico de drogas, eles contam com a proteção dada pelos traficantes, revertendo parte do lucro para o chefe local”, explicou o professor Bandeira.
E aí voltamos ao início desse texto. “Quando a esmola é muita, o santo desconfia”.
Ao comprarmos produtos vindos do crime estamos alimentando e armando poderosas quadrilhas. O dinheiro arrecadado por eles nesse tipo de negócio vai financiar o tráfico de drogas, os grandes assaltos e a corrupção.
A pequena vantagem que teríamos comprando por um preço menor uma barra de chocolate, uma bebida ou um maço de cigarros acaba se transformando num grande prejuízo para toda a sociedade.
Combater esse tipo de crime também é um dever de todo cidadão. Resista à tentação do ganho fácil, desconfie de algumas ofertas evitando assim engordar os cofres das organizações criminosas.