Solidariedade contra o desmonte da Lava Jato
‘Em menos de 24 horas, brasileiros depositaram espontaneamente na minha conta mais de trezentos mil reais porque estão indignados com a condenação que sofri no STJ’
O Brasil assiste, resignado, ao enterro da Operação Lava Jato. Os golpes contra aqueles profissionais que ousaram investigar os tentáculos da corrupção no Brasil são cada vez mais freqüentes. Enquanto isso, quem se aproveitou do dinheiro desviado dos cofres públicos não só fica livre, como se sente no direito de tripudiar de quem os investigou.
Esta semana foi a vez do ex-procurador Deltan Dellagnol enfrentar as barras da justiça. Por quatro votos a um, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) o condenou ao pagamento de R$ 75 mil, por danos morais, ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Depois de ter vencido o processo em primeira e em segunda instância, Deltan Dellagnol viu a decisão ser revertida no STJ. O colegiado julgou um recurso da defesa do ex-presidente contra decisões de instâncias inferiores que rejeitaram o pedido de indenização pelo conteúdo de uma coletiva de imprensa, realizada em 2016, na qual Dellagnol e outros procuradores, utilizaram uma série de gráficos e tabelas para detalhar as denúncias que seriam apresentadas pela força-tarefa da Operação Lava Jato.
A defesa de Lula, questionou a conduta funcional de Deltan Dallagnol, alegando que o ex-procurador e outros integrantes da Lava Jato usaram uma apresentação de Power Point para acusar o ex-presidente de atuar como “comandante e maestro de uma organização criminosa”. Os advogados do ex-presidente pediam R$ 1 milhão em reparação por danos morais.
No julgamento, o relator do caso, ministro Luis Felipe Salomão, votou a favor da condenação e citou que o procurador usou termos desabonadores e linguagem não técnica em relação ao ex-presidente. Outros três ministros o acompanharam.
Inconformado com a decisão, Dellagnol desabafou em entrevistas e nas redes sociais.
“A minha reação é de absoluta indignação. O que a gente vê acontecendo na Lava Jato é: vários corruptos sendo livrados e sendo feitos impunes pelo STJ e pelo STF, nesse caso específico o ex-presidente Lula, que foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro em três instâncias, não só por sítio ou por tríplex, mas por corrupção na Petrobras de dezenas de milhões de reais, e foi colocado impune pelo STF. E, agora quem tem que pagar somos nós, os investigadores, pessoas que trabalharam nesse caso. É a sociedade brasileira que paga pelos crimes. O que a gente está vendo é uma total inversão de valores no Brasil”, disse Dellagnol.
Logo que a notícia da condenação de Dellagnol se espalhou, brasileiros solidários ao trabalho da Lava Jato decidiram ajudá-lo a pagar a multa imposta pela Justiça. Depósitos, pelo sistema Pix, foram feitos na conta corrente dele. O valor superou o imposto pelo STJ. Dellagnol foi às redes sociais para registrar o fato.
“Em menos de 24 horas, brasileiros depositaram espontaneamente na minha conta mais de trezentos mil reais porque estão indignados com a injustiça da condenação que sofri no STJ para indenizar Lula. Não tenho palavras para o carinho, a solidariedade e o senso de justiça desse gesto”, escreveu Dellagnol.
Como ainda cabe recurso dessa decisão do STJ, o ex-procurador explicou que destino pretende dar ao dinheiro. Disse que todo o valor depositado será transferido para uma conta separada da dele. E lá ficará até que a Justiça determine o montante a ser pago ao ex-presidente Lula. Assim que for feita a quitação, as sobras serão destinadas a instituições que cuidam de crianças autistas e que lutam contra o câncer.
O ex-presidente Lula, até agora, não disse o que pretende fazer com o dinheiro que, mantida a decisão do STJ, receberá de Dellagnol.
Só para lembrar, em quase sete anos da Operação Lava Jato foram realizadas 79 fases de investigação, 981 pessoas foram denunciadas, entre políticos, empresários, doleiros e funcionários públicos. Foram fechados 278 acordos de colaboração e de leniência. No total, os envolvidos se comprometeram a devolver R$ 22 bilhões. Desses, mais de R$ 5 bilhões já retornaram ao povo brasileiro.