‘Tinha que ser mulher’

Os casos só aumentam, apesar da criação de mecanismos para tentar conter a violência contra as mulheres, como as DDMs, aperfeiçoamento das leis e medidas protetivas

Por Cruzeiro do Sul

A frase machista do título, carregada de preconceito e desrespeito, é facilmente ouvida aos quatro cantos da cidade, principalmente no trânsito. Esses dias mesmo, um senhor, com seus mais de 80 anos, no alto de sua arrogância, proferiu a tal frase aos gritos para ofender uma mulher em uma rua com grande fluxo por conta da existência de uma escola. Isso na frente de crianças. Não contente, com sua prepotência ainda disse: “Você sabe com quem está falando?”. Tudo para intimidar a mulher e tentar transferir a ela a culpa de uma pequena colisão. Não justifica a violência verbal, mas ela é o estarte para a agressão física contra mulheres, infelizmente tão recorrente.

Recentemente este jornal trouxe uma triste informação: uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual, segundo o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), de março de 2021. Uma outra pesquisa, do Jusbarômetro SP, demonstrou que 88% das mulheres paulistas perceberam o aumento da violência doméstica.

O levantamento realizado entre 21 e 24 de agosto de 2021 apontou que 54% das mulheres entrevistadas indicam a violência doméstica contra a mulher como a principal preocupação das paulistas hoje. Além disso, 66% acreditam que a casa é o principal local das agressões e 63% apontam como autor do crime o cônjuge, companheiro ou o namorado da vítima.

Indicadores mostram que essa violência toda é uma das consequências da falta de educação e da intolerância para o diálogo. Isso vem de berço. A ofensa proferida pelo idoso contra uma mulher, relatada acima, confirma essa constatação.

Deus criou a mulher após ter completado a sua obra quando viu que tudo era muito bom, mas o homem estava só. Deus criou a mulher pensando no homem. Não imaginava, talvez, que o tal homem agrediria e até mataria a mulher. Que elas seriam humilhadas gratuitamente.

Março, o mês da mulher, nem terminou e o noticiário desses primeiros 90 dias de 2022 tristemente continua reportando tragédias anunciadas contra as mulheres.

Em 12 de janeiro deste ano, um homem, de 34 anos, foi preso suspeito de agredir a ex-esposa no Jardim São Guilherme, zona norte de Sorocaba. Depois de ser espancada, a vítima ficou desacordada por mais de 30 minutos na garagem da casa.

No 6 de fevereiro, uma mulher foi agredida com socos no rosto, no bairro Wanel Ville, em Sorocaba. O agressor, de 46 anos, era companheiro da vítima e foi preso.

Em 5 de março, Eliano de Lima Barbosa Filho, de 28 anos, bateu na esposa Anna Caroline Valença Oliveira, de 26 anos. O crime foi em São Paulo. Cinco dias depois, a mulher, natural de Sorocaba, morreu no hospital. O covarde está foragido. A Polícia Civil de São Paulo instaurou inquérito para investigar a morte. A linha de apuração é de feminicídio.

Os casos só aumentam, apesar da criação de mecanismos para tentar conter a violência contra as mulheres, como as Delegacias de Defesa Mulher (DDMs), aperfeiçoamento das leis e medidas protetivas, entre outras ações.

Qual seria a solução: leis ainda mais rígidas, aumento do efetivo policial especializado ou medidas educativas? Como punir covardes? Como evitar que eles proliferem? Quando haverá consciência? Quando as mulheres serão vistas com a dignidade que merecem? Quando serão respeitadas? Quando deixarão de ser perseguidas, agredidas, mortas apenas por serem mulheres? Quando?