Sommelier de vacina e 3ª dose
Além de todas as dificuldades, Brasil ainda tem de lidar com gente que quer escolher a marca da vacina
O Brasil realmente não é para amadores. Senão vejamos, em que país do mundo uma parcela da população fica discutindo e escolhendo qual vacina tomar enquanto a pandemia mata milhões de pessoas em todo o planeta?! Ou então, em que país do mundo é recomendável que uma pessoa que vai se imunizar tenha um acompanhante para checar ou filmar a aplicação a fim de tentar evitar “vacina de vento” ou alguma maracutaia?!
Atualmente, a cada dia de vacinação, pipocam mensagens nos grupos de WhatsApp de pessoas perguntando qual vacina está sendo aplicada em qual posto? Tudo para tentar escolher o imunizante. Isso até poderia fazer sentido caso a grande maioria da população já tivesse sido vacinada. Mas, no atual estágio, é um atestado de egoísmo e até de falta de inteligência -- afinal, a cada minuto sem ser imunizado, a chance de contrair o vírus é maior. Consequentemente, o risco de vir a ter problemas de saúde ou até mesmo morrer, idem.
Vacina boa é aquela que a gente toma, que é aplicada. Essa é a melhor vacina possível. Não dá para ficar escolhendo marca. Nunca foi assim. Alguém por acaso lembra a marca da vacina de gripe que tomou na última vez? Claro que não. Simplesmente porque isso nunca foi relevante. Mas agora, justamente durante a maior pandemia dos últimos 200 anos, as pessoas se acham no direito de escolher o imunizante?! Tem tanta gente esperando a vacina, ansioso, e aquela pessoa que tem o direito simplesmente fala “não vou tomar a vacina pois essa eu não quero”. Isso é um disparate.
Nesse sentido, quem fez bem foi a Prefeitura de São Bernardo do Campo. Na cidade, que fica no ABC paulista, próximo à capital, quem se recusar a tomar a vacina contra a Covid-19 disponível no posto onde se cadastrou assinará um termo de responsabilidade que o coloca automaticamente no fim da fila da vacinação, ou seja, depois do último adulto de 18 anos. Caso a pessoa se recuse a assinar, duas testemunhas que estarão trabalhando no local irão endossar o termo.
É importante frisar que as pessoas seguem no direito de querer ou não se vacinar -- se bem que está mais do que provado a importância vital do imunizante. Contudo, a população não tem o direito de escolher o fabricante, ainda mais no meio de uma pandemia como a do coronavírus.
E o Brasil ainda produz outros tipos peculiares, para não dizermos abomináveis. Somente no Estado de São Paulo, seis pessoas estão sendo investigadas por suspeita de terem tomado três doses de vacinas contra a Covid-19. Os investigados são uma veterinária de Guarulhos; uma dentista, uma psicóloga e um professor de São Caetano do Sul; e dois médicos de São Paulo.
O assunto veio à tona quando a veterinária -- cujo nome vamos preservar -- postou, numa rede social, uma foto do comprovante do posto de saúde e contou que foi vacinada com duas doses da Coronavac, em fevereiro e março, e com dose única da vacina da Janssen em outra unidade. Em seu comentário junto à postagem, ela tenta explicar o inexplicável. Diz que estava “incomodada” com a vacina que havia tomado e que, por isso, buscou e conseguiu tomar mais uma de outra fabricante. De forma absolutamente sem noção, a mulher critica o primeiro imunizante e, pior, zomba do sistema de controle, dizendo que quando a informação de sua terceira dose cair no sistema já terá sido tarde. Ela só esqueceu de uma coisa. As vacinas -- todas elas aprovadas pela Anvisa -- previnem contra o coronavírus, mas não contra o mau-caratismo e a burrice.