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Vinde, exultemos de alegria

Artigo escrito por Vanderlei Testa, jornalista e publicitário, escreve às terças-feiras no Jornal Cruzeiro do Sul
Vinde, exultemos de alegria
Crédito da foto: Arquivo / Dom Julio

Vanderlei Testa

Outubro. Mês missionário. Dia de Nossa Senhora Aparecida. Dia dos professores, das crianças e da alegria. O que faz uma imagem transmitir missão, amizade, respeito e bom humor? Uma pergunta simples que respondo neste artigo inspirado por essa foto. Quando olhei a fotografia do Papa Francisco e de Dom Julio Endi Akamine em uma gostosa conversa e sorrindo, imaginei aquele momento. Esse instante me fez ver os dois personagens com as comunidades que eles assumiram. O Papa em contato diário com pessoas dos quatro continentes do mundo e, dom Julio, na Arquidiocese de Sorocaba com os seus inúmeros compromissos.

Dom Julio é filho de Guengio Akamine e de Teruko Oshiro Akamine, “a dona Rosa”. O jovem Julio morou na casa dos pais até os seus 13 anos, quando ingressou no seminário. Ele nasceu em 30 de novembro de 1962, na cidade de Garça, interior de São Paulo. Em 1975, com sua malinha de roupas preparada por dona Rosa e os conselhos do pai, imagino a ansiedade natural de um adolescente, passando pelos portões do Seminário da Sociedade do Apostolado Católico, conhecida como congregação dos “Palotinos”. Está localizada no Estado do Paraná, na cidade de Londrina. As primeiras amizades com os jovens e, adaptação às regras religiosas, horários a cumprir e disciplina, com certeza, trouxeram ansiedade ao garoto Julio.

Humanamente, penso que seria difícil afirmar que já havia a vocação religiosa de ser padre ou bispo com essa idade. A caminhada iria projetar o futuro com os estudos, a convivência e a principal inspiração, que é o chamado de Deus. Quatro anos depois de pisar pela primeira vez no seminário, em 1979, muita água já havia rolado no “rio de água viva”, cuja nascente tinha Jesus como fonte inesgotável. O jovem Julio já tinha 17 anos de idade. Decisão tomada, a vocação iluminada pelo Espírito Santo o levaria ao passo seguinte de sua formação. Era a vez de partir para Cornélio Procópio, no mesmo Estado do Paraná, para fazer o Noviciado. O Seminário Rainha da Paz era a sua casa agora. Havia a partir daí uma longa trajetória de preparação, reflexão, estudo e entrega plena para chegar ao próximo objetivo do Diaconato. Só iria acontecer em 25 de janeiro de 1987, com os seus 25 anos de idade. A transformação daquele menino tímido, determinado e com o coração abrasado pela chama divina, da turminha de amigos de Garça, agora o deixava pronto para receber uma nova missão. Em uma cerimônia presidida por Dom Luciano Mendes de Almeida, na Paróquia Coração Eucarístico de Jesus e Santa Marina, na região do Belém, na capital de São Paulo, acontecia à imposição das mãos sobre Julio Endi Akamine para o Diaconato. A felicidade irradiava não como orgulho ou vaidade de uma conquista, mas, sim, de uma certeza que trazia no seu coração apaixonado por Jesus.

Um ano depois, em 24 de janeiro de 1988, chegava o grande dia. Ia ser ordenado sacerdote. A cidade de Cambé, no Paraná, foi a escolhida. Lá, Dom José Maria Maimone, com a presença da família, dos amigos da colônia japonesa, dos sacerdotes Palotinos, ungiu o diácono Julio Endi Akamine e, o consagrou para servir a Deus como padre. A mesma Paróquia de Santo Antonio que o acolheu na ordenação, era a escolhida para que o padre Julio a assumisse como Vigário Paroquial. De 1988 a 1990, agregou o povo de Cambé nessa Igreja em pastorais e serviços de evangelização. A Arquidiocese de Londrina ganhava com a sua dedicação pastoral, um novo pastor de ovelhas amado pela comunidade. Isso o levou a assumir posteriormente, até 1993, como Pároco da Igreja de Santo Antonio.

Uma nova trajetória iniciava na vida do padre Julio Akamine. Foi em Roma. A formação religiosa o conduziu a obter de 1993 a 1995 o Mestrado em Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana. Anos depois, de 2001 a 2005, conquistava o Doutorado na mesma universidade italiana. Enquanto escrevo este artigo, fico viajando no tempo com essa “peregrinação divina” que o chamado de Deus revela numa pessoa escolhida a ser sacerdote ou papa.

Jorge Mario Bergoglio nasceu em Buenos Aires, em 17 de dezembro de 1936. Descendente de italianos, chegou ao sacerdócio como jesuíta, aos 21 anos de idade. Uma precoce vocação religiosa. Antes, estudava engenharia química. O padre Jorge Mario é um testemunho vivo de como o chamado de Deus é, muitas vezes, uma incógnita à sabedoria humana. O padre Mário, consagrado pelo Papa João Paulo II como Bispo titular de Auca e, posterior Arcebispo de Buenos Aires, cardeal primaz da Argentina e presidente da Conferência Episcopal é o Papa Francisco.

E no encontro na Casa Santa Marta, Vaticano, Roma, o papa Francisco e dom Julio Endi Akamine, os dois vindos de rotas diferentes, se encontram em uma conversa amiga, como dois pastores abençoados de origens imigratórias. Os avós de dom Julio, Ken e Maushi, vieram do Japão. A família do Papa Francisco, da Itália. Se dom Julio tem a mãe, dona Rosa, por outro lado, a avó do papa Francisco, também é Rosa Bergoglio. Os avós de dom Julio vieram ao Brasil para enfrentar a vida com as promessas econômicas na lavoura do café. Acabou trabalhando na cultura do algodão. A família Bergoglio, do Norte da Itália, de Piemonte, cicatrizada pela Primeira Guerra Mundial, escolheu a Argentina.

Ligados pelo sorriso e vidas abençoadas pela cruz de Cristo no peito de cada um, o chamado de ambos segue na Igreja fundada em Pedro nos apóstolos. Como Igreja, levam a esperança neste triste tempo da pandemia de Covid-19, como sinal da fraternidade e solidariedade dos primeiros cristãos. É por isso que o documento do papa Francisco “Evangelii Gaudium”, diz, no seu início, que ”a alegria do evangelho enche o coração e a vida inteira daquele que se encontra com Jesus”.

Vanderlei Testa, jornalista e publicitário, escreve às terças-feiras no Jornal Cruzeiro do Sul e aos sábados no www.facebook.com/artigosdovanderleitesta e www.blogvanderleitesta.com

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