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Vacinas e política

Artigo escrito por Edgard Steffen, escritor e médico pediatra
Vacinas e política
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Edgard Steffen

Os termos “vacina” e “vacinação” vêm de
Variolae vaccinae (varíola da vaca) termo proposto por
Pasteur para designar agentes imunizantes

Em maio de 1796, o médico da roça Edward Jenner, inoculou na pele de James Phipp (8 anos), material extraído de vesículas existentes nas mãos de uma ordenhadora (Sara Nelmes) portadora de varíola das vacas. Inaugurou a era das imunizações e criou o termo vacina. Em 1885, Louis Pasteur — que não era médico, era químico — evitou que o garoto Joseph Meister (9 anos), mordido por cão raivoso, morresse de hidrofobia. Durante 13 dias, injetou vírus atenuados no garoto. Embora sua invenção nada tivesse com vacas e bovídeos, em homenagem a Jenner, chamou seu imunizante “vacina antirrábica”. E o nome pegou. As substâncias imunizantes criadas pelos cientistas passaram a ser designadas pelo termo comum “vacina”.

A vacina antivariólica mudaria o panorama das doenças pestilenciais e a história do mundo. Napoleão Bonaparte, ciente de que doenças matavam mais que as guerras, mandou aplicar a invenção jeneriana em seus soldados. Bonaparte, a doença e a vacina condicionaram mudanças nos destinos políticos de nossa Pátria. O general francês, por obrigar a corte portuguesa a atravessar o Atlântico e abrigar-se no Brasil, adiantou nossa independência. O herdeiro do trono de D. Maria “Louca” I era o filho mais velho. Dom José morreu, aos 27 anos, vitimado por varíola. A regência da Casa de Bragança foi entregue a D. João VI, pai de Pedro nosso libertador. Dona Maria podia ser louca, mas D. João VI — que não era nenhum Nhonho como nos ensinavam na escola — mandou vacinar seu irrequieto herdeiro para garantir que as bexigas não fizessem com ele o que fizeram com o tio José. O filho de João, voluntarioso e aloprado, resolveria “no grito” a situação do Brasil.

À medida que digitava, lembrei-me de minha experiência com a varíola. Problema das doenças infecciosas é que, no início, todas são iguais ou muito parecidas. Febre, dor de cabeça e falta de apetite. Depois de algum tempo, variável entre horas ou alguns dias, aparecem sintomas e sinais que vão permitir a identificação específica do vírus ou bactéria e a respectiva doença. Seu Antônio ardia em febre quando mandou me chamar. Brotaram-me várias dúvidas sobre o diagnóstico. Alguns dias após o caso ficou claro. As vesículas da varíola brotaram em todo seu corpo. Figura importante — havia sido prefeito do município onde trabalhei — se evoluísse mal, eu poderia dar adeus ao projeto de angariar clientela. Quando voltei para Sorocaba, no bairro do posto de Puericultura, broto epidêmico de varíola grassou entre adultos e crianças; foi controlado porque a vacina antivariólica era 100% eficaz. No fim da década de 70 atendi a jovem Ylza, moradora em bairro de classe média alta, e diagnostiquei o último caso de varíola em Sorocaba.

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A erradicação da varíola, da poliomielite (paralisia infantil) e o rígido controle das doenças preveníveis por vacina foram temas que sempre me foram caros. Aborrece-me sobremaneira o desserviço prestado por grupos que lutam contra as vacinas. Baseiam-se em fake-news ou trabalhos pseudocientíficos, inadvertidamente publicados sem o crivo do rigor editorial.

Desde que surgiu a Covid19, ansiamos fervorosamente por um imunizante capaz de dominar a pandemia. Esperávamos uma acirrada corrida. Mais para maratona que para cem metros rasos, porque há fases que precisam ser rigorosamente cumpridas. Quem chegar na frente, além dos louros da vitória, locupletar-se-á com fantásticos royalties.

A julgar pelo que dizem jornais, no Brasil e no mundo, a luta pelo poder político atrapalha o objetivo maior — vencer a pandemia. Cada um quer “a sua” vacina porque lhe rende acesso ou permanência no poder.

Edgard Steffen é escritor e médico pediatra. E-mail: edgard.steffen@gmail.com

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