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Urbanismo e sanitarismo

Artigo escrito por Marcelo Augusto Paiva Pereira, arquiteto e urbanista

Marcelo Augusto Paiva Pereira

Urbanismo e sanitarismo são ramos do conhecimento que caminham lado a lado. O primeiro depende do segundo para assegurar saúde pública e o segundo confere ao primeiro a salubridade urbana que necessita. Esta parceria surgiu após a revolução industrial (1760-1840) ocorrida na Inglaterra.

Em épocas anteriores à revolução industrial o urbanismo era politizado e obra de generalistas: atendia aos interesses das classes políticas dominantes (a nobreza ou o rei) e procedia de pessoas de muito conhecimento em várias áreas, mas sem aprofundamento em urbanismo.

Posteriormente à ela, o urbanismo passou a garantir a produção industrial, criar a cidade da burguesia moderna, atender de forma adequada e eficiente o mercado consumidor e alojar a classe operária. Tais objetivos também tiveram o concurso de ocorrências que deram causa ao sanitarismo.

Após o incêndio que devastou Londres (1666), a reconstrução da cidade reproduziu o plano urbano medieval porque o rei Carlos II (1660-85) queria um plano urbano que representasse a burguesia e não a Coroa. Foi apresentado um plano ortogonal (hipodâmico), mas recusado porque representava o modelo absolutista francês.

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A insalubridade acontecia em Londres e em 1854 ocorreu grave surto de cólera, iniciado em “Broad Street” num chafariz de água aos moradores do entorno. Cria-se que esse surto provinha de uma causa maligna chamada miasma, de origem religiosa. O médico John Snow, entretanto, tratou-o com cunho científico, descobriu a fonte da qual se propagou o cólera e o extinguiu.

No mesmo período o então prefeito Haussmann (1853-70), de Paris, devastou a cidade medieval e construiu nova urbe, com vistas à segurança, defesa nacional e ao sanitarismo (salubridade (galerias de águas pluviais, esgoto, sistema de fornecimento de água e edificações gabaritadas), melhor circulação de pessoas e bens, iluminação e arborização de ruas e avenidas).

Enquanto Londres conservou o modelo medieval, Paris foi reconstruída sob a óptica do mundo moderno que surgia. Um projeto revolucionário à época, acolhido em várias cidades pelo mundo (Viena e Rio de Janeiro, por exemplo).

Surgiu no início do século 20 o pensamento sobre a metrópole moderna, fundada na sociedade industrial. Ela exigiu nova postura de eficiência técnica diante das demandas, e não apenas um novo estilo arquitetônico ou urbanístico. O sanitarismo passou a fazer parte deste pensamento (em Paris se tornou necessário à saúde pública).

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Em suma, o sanitarismo depende de projetos urbanos que acolham os espaços amplos, como são as ruas, avenidas, alamedas, praças, parques públicos, quadras que propiciem habitações e outros edifícios providos de iluminação e ventilação naturais e, também, um elaborado projeto de fornecimento de água e de galerias para garantir a salubridade urbana e a saúde pública.

Por fim, as metrópoles atuais dependem desses projetos para garanti-las em todas as áreas urbanas, porque epidemias ou pandemias contaminam onde houver ambientes insalubres ou sem higienização sanitária. Nada a mais.

Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.

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