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Um Lindo Dia Na Vizinhança

Artigo escrito por Edgard Steffen, escritor e médico pediatra
Um Lindo Dia Na Vizinhança
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Edgard Steffen

Fala pausada. Calma sobre-humana. Atenção absoluta
no interlocutor. Respeito essencial pelo próximo.
Mister. Roger – Isabela Boscov- Veja, 28/01/2020

Em 2020, Tom Hanks foi indicado ao Oscar de ator coadjuvante por sua atuação no filme que dá título a esta crônica. Deveria ter vencido. O talentoso Hanks, interpretou à perfeição Fred Roger, icônico apresentador de programa infantil, anos 60. Mister Roger’s Neighbohood permaneceu 23 anos na TV americana. Influenciou uma legião de “baixinhos” (para usar o bordão Xuxa) daqueles anos. Barak Obama certamente acompanhava o programa. Obama considerou seu filme predileto na safra 2020. No Brasil o programa não aconteceu.

O filme é livre adaptação de artigo da Revista Esquire (“Can You say… Hero?” – November, 1998). Fred Roger — pastor presbiteriano, psicólogo, comunicador — era produtor, roteirista, apresentador e intérprete de seus personagens fantoches (rei, coelho, leão… e outros que não me vêm à memória). Movimentava-se no cenário multicor, mas de grande simplicidade, na emissora de televisão de Pittsburgh. Recebia um simpático carteiro e era auxiliado por atriz coadjuvante, espécie de fada. Todos os personagens eram “do bem”. O carteiro trazia sempre boas notícias. A mensagem central: não importa a distância, você sempre pode demonstrar seu amor e sentir-se amado pelas pessoas que se importam com você. Os fantoches viviam situações parecidas com as das crianças comuns e discutiam soluções em linguagem acessível aos pequeninos. Na interação com os bonecos, os pequenos eram ensinados a enfrentar buyling (sem revides), perdas (morte, doença, divórcio), limitações (situação econômica) e praticar comportamentos favoráveis ao convívio, à felicidade familiar. Mr. Roger entrevistava e dialogava com crianças dentro do cenário. De costa a costa dos USA, os pequerruchos sentiam-se vizinhos do bondoso apresentador. Sabiam e cantavam de cor a trilha sonora do programa.

A esta altura, meu leitor deve estar questionando por que Tom Hanks não foi indicado para o Oscar de ator principal e por que o chato do cronista contou o enredo do filme que pretendia assistir. Perdeu a graça… O personagem principal é um jornalista investigativo, designado para entrevistar o herói televisivo. Tentei rápidas pinceladas para descrever o apresentador, já falecido. Vim a conhecê-lo apenas no filme. Na internet encontrei a entrevista base da película. O Lindo Dia na Vizinhança é uma ilha de gente boa num ambiente familiar.

Vivemos contexto em que o cinema banalizou violência e distopias. Rios de sangue escorrem na tela, drogas e drogados, pedofilia, nudez e sexo exacerbado ficam ao alcance de qualquer criança pelo controle remoto. Programas infantis com propostas educativas foram substituídos por desenhos cheios de criaturas estranhas, monstros e parafernália de luzes e movimentos. Mundo que em nada se parece com a vizinhança do lar ou escola. Paraíso perdido.

Programas ingênuos, simples, dificilmente atraem crianças acostumadas desde muito cedo com essas maquininhas infernais. Pais, sacerdotes, professores com os atributos relacionados pela jornalista da Veja (no texto que ilustra este) não fazem sucesso em nossos dias.

Cavouque suas memórias afetivas. Encontrará algum professor ou sacerdote ou médico conversando com voz pausada, atitude calma, firme atenção às suas inseguranças e respeito à sua individualidade, enquanto ajuda você em momentos difíceis.

O artigo da Esquire, base inspiradora do filme, transcreve diálogo entre um garoto e Fred Roger. — Não sei orar, diz o menino. Cada vez que tento rezar, esqueço as palavras. — Sei o que você sente, responde Mr. Roger, por isso vou ensinar você a orar usando só três palavras. — Que oração é essa? — Thank you, God!

Outubro é mês da Criança, do Professor e do Médico. Seja esta crônica meu jeito de homenageá-los. Professores e médicos podem ajudar crianças a vencerem obstáculos que se opõem ao seu crescimento holístico e harmônico. E orar por eles com apenas três palavras. Obrigado, meu Deus!

Edgard Steffen é escritor e médico pediatra – edgard.steffen@gmail.com.

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