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Tratamento da obesidade com cirurgia

Mário Cândido de Oliveira Gomes 

Existem obesos que não conseguem diminuir o peso com tratamento convencional. ou seja, dieta, exercícios físicos, medicamentos, etc. Porém necessitam baixar urgentemente de peso em virtude de enfermidades (diabetes, apnéia do sono, etc), piora da qualidade e redução da expectativa de vida. Neste caso está indicada a cirurgia bariátrica (baros = redução do peso).

A obesidade – índice de massa corporal (IMe) acima de 30 kg/m2, é um grave problema de saúde pública no Brasil. Tal epidemia vem aumentando de forma assustadora em todo mundo, mas, principalmente, nos países desenvolvidos, como os Estados Unidos. Existem diversos fatores que levam à obesidade, tais como enfermidades (distúrbios hormonais, problemas psiquiátricos, etc), mudanças no estilo de vida (tipos de alimentos, vida sedentária, etc), herança familiar (genética), etc. Todavia, na maioria dos casos, existe um excesso na ingestão de alimentos, principalmente de gorduras e açúcares (acima de 2.400 calorias/dia). Destes obesos, de 1% a 2% apresenta o IMe acima de 35 ou 40 kg/m2, configurando a chamada “obesidade mórbida ou grave”, com resultados frustrantes no tratamento convencional. Tais indivíduos apresentam alta prevalência de complicações clínicas (doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, gota, deslipidemias, etc) e mortalidade elevada. Este grupo de obesos ingere alimentos estimulados por várias situações além da fome e, frequentemente, têm dificuldades na percepção da saciedade.

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O tratamento cirúrgico está indicado para este grupo, com resultados excelentes. Todavia, a perda de peso é máxima ao redor de um ano após a cirurgia, melhorando de forma acentuada a qualidade de vida. O procedimento deve ser reservado para: a – pacientes com IMe maior que 40 kg/m2; b – que tenham falhado no tratamento não cirúrgico, c- que seja acompanhado a longo prazo por equipes multiprofissionais e consentiram em submeter-se à cirurgia depois de serem informados de suas complicações (vômitos, dumping, distúrbios de comportamento, etc). As técnicas mais utilizadas na atualidade baseiam-se no princípio de diminuir drasticamente o reservatório do estômago, de forma a limitar a ingestão de alimentos, causando a sensação de satisfação precoce. Além da gastroplastia (redução anatômica do estômago), existe a possibilidade de restrição puramente mecânica, que pode ser feita com vantagens, utilizando-se a bandagem gástrica (anel constritor externo) ajustável por via laparoscópica. Quando exclusivamente restritiva, esta operação provoca 20% de perda de peso, em média. Os resultados são desapontadores em indivíduos com hábito de ingestão de doces em abundância ou líquidos e alimentos pastosos hipercalóricos.

Para outros, a perda de 20% no peso é insuficiente para alívio da morbidade associada, como nos pacientes com 180 kg. Nestes casos, está indicado um acréscimo de uma derivação gastrojejunal (gastric bypass) à diminuição da capacidade gástrica. Assim, é construída uma pequena câmara com um anel de “silastic” na saída do estômago, à qual vai desembocar numa anastomose gastrojejunal, apressando a saída dos alimentos para o intestino fino. Tal cirurgia permite a perda de 40% do peso, com baixas taxas de recidiva (5%). A mortalidade relacionada com a operação é da ordem de 1%. A mesma cirurgia pode ser feita por via laparoscópica, porém, a técnica é bastante complexa e exige grande destreza e habilidade do cirurgião. A cirurgia “bariátrica” é um campo profissional de grande e rápida expansão, mas necessita de infraestrutura hospitalar adequada e equipe multidisciplinar preparada, a fim de proporcionar segurança e eficiência no tratamento.

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Artigo extraído do livro Doenças – Conhecer para prevenir (Ottoni Editora), de autoria do médico Mário Cândido de Oliveira Gomes, falecido aos 77 anos, no dia 6 de junho de 2013.

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