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Artigo escrito por Sandro Donnini Mancini, professor da Unesp em Sorocaba

Sandro Donnini Mancini

Foi lançado na semana passada pelo Instituto Trata Brasil o Ranking do Saneamento 2020. Esse ranking vem desde 2009 mostrando o quanto ainda precisa ser feito para garantir a universalização do acesso à água tratada e, principalmente, em relação a esgoto (coleta e tratamento) das 100 maiores cidades brasileiras.

O lançamento da versão 2020 do ranking foi, como qualquer notícia diferente veiculada atualmente, bastante ofuscado pela pandemia relacionada ao novo coronavírus. Esse ofuscamento tem tudo a ver com o que se ensina desde sempre nos cursos relacionados à meio ambiente (por exemplo, Engenharia Ambiental): que enquanto o lixo faz estragos locais, a poluição hídrica tem consequências regionais. Ou seja, falta de tratamento de esgoto e seus reflexos são problemas das cidades, regiões etc. Porém, a poluição atmosférica (por exemplo, o ar contaminado com um novo vírus observado pela primeira vez na China em dezembro do ano passado), pode tornar-se um problema global em cerca de 3 ou 4 meses. E como é invisível, intangível (não dá pra tocar) e pode não apresentar cheiro algum, não é incomum a poluição atmosférica ser negligenciada (como o aquecimento global) até virar motivo de pânico (como o coronavírus). Curiosamente, já se vê muita gente que negligenciava o novo vírus (não coincidentemente alguns dos quais chamam o aquecimento global de boato) com máscara na cara e álcool em gel no bolso.

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Tentando esquecer — um pouco — o vírus e voltar para problemas bem brasileiros, uma das discussões que pegou após o lançamento do novo ranking foi a diferença entre Bauru e Piracicaba em relação a tratamento de esgoto. Ambas as cidades paulistas tem cerca de 400 mil habitantes, mas chama a atenção que Bauru tenha 1,8% de tratamento de esgoto enquanto Piracicaba 100%. O que motiva essas diferenças? Isso é uma resposta para ser respondida pela população das duas cidades, que elegeram ao longo dos anos representantes com pensamentos e prioridades bem diferentes em relação a saneamento. Assim, Piracicaba aparece em 6º lugar no ranking e Bauru em 61º. O ranking não leva em conta somente índices de água tratada, coleta e tratamento de esgoto (nos quais Piracicaba conseguiu 100% em todos), mas também outros parâmetros, como investimentos no setor e perdas de água durante a distribuição. Dessa maneira, Santos, Franca, Maringá, São José do Rio Preto e Uberlândia foram as cinco cidades mais bem ranqueadas. O ranking completo pode ser visto em http://tratabrasil.com.br/images/estudos/itb/ranking_2020/Tabela_100_cidades_Ranking_Saneamento_4.pdf Em 19º lugar do ranking está São Paulo, a cidade mais rica do país. Com bons números de água tratada (100%) e coleta de esgoto (97%), o tratamento de esgoto é de somente 65%. Ou seja, 35% do esgoto de seus 12 milhões de habitantes acaba indo, sem tratamento algum, para seus rios (como o Tietê e Pinheiros, os mais famosos). Justiça seja feita, o Tietê já chega bastante emporcalhado à capital paulista: Guarulhos, uma das cidades na rota do Tietê antes de São Paulo, trata somente 7,4% do esgoto de seus mais de 1 milhão de habitantes.

E Sorocaba? Ocupa a 22ª posição no ranking nacional, o que significa que perdeu duas posições com relação ao levantamento do ano passado. A cidade apresenta 98,49% de atendimento total de água, sendo 99,5% na zona urbana. Ao todo, a cidade capta 98,22% do esgoto gerado, sendo que no trecho urbano esse número também melhora: 99,23%. Porém, apenas 88,42% do esgoto da cidade é tratado. Antes que alguns se exaltem, usei o termo “apenas” porque esses serviços deveriam ser universais (100%). Ou será que quem mora em Sorocaba, São Paulo, Guarulhos ou Bauru merece menos que quem mora em Piracicaba?

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Infelizmente, não há outras cidades da Região Metropolitana de Sorocaba no ranking. Se tivesse, será que teríamos surpresas positivas? Taí um bom tema para as eleições municipais deste ano, afinal Piracicaba prova que é possível atingir a universalização de serviços básicos de saneamento.

Sandro Donnini Mancini é professor da Unesp em Sorocaba.

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