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Tarsila Popular Brasileira

Artigo escrito por João Alvarenga, professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura

João Alvarenga

Em 2022, a Semana de Arte Moderna, movimento que revolucionou nossas artes, completará seu primeiro centenário; porém, diante do contexto atual, em que a preocupação com a pandemia do Covid-19 ocupa integralmente os noticiários, apenas da TV Cultura saiu na frente para festejar essa importante efeméride. Para isso, preparou uma série de documentários sobre a contribuição que os modernistas deram não só para as nossas manifestações artísticas, mas também possibilitou uma reflexão profunda sobre nossa identidade nacional. Esperamos que os episódios sejam disponibilizados na internet, para que as escolas possam, em breve, fazer coro às merecidas homenagens.

A série começou com uma abordagem sobre Tarsila do Amaral (foco deste artigo), uma das figuras mais marcantes do movimento, afinal seu nome está vivo na memória do povo, principalmente entre crianças e adolescentes, pois suas telas e desenhos configuram em livros didáticos e portais, são objetos de ensaios e teses. Alunos de vários ciclos estudam as diferentes fases da artista, durante as aulas de Literatura e Artes. “Abaporu”, o mais famoso dos quadros, é reproduzido pelos alunos do ensino fundamental, como forma de eternizar uma tela que, infelizmente, não pertence mais ao acervo nacional, foi arrebatado por um colecionador argentino.

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Essa prática pedagógica é muito produtiva, porque torna o ambiente escolar lúdico, quebra a rotina e envolve os alunos numa tarefa que foge do aspecto conteudístico, a fim de permitir que os jovens tenham liberdade de expressão. Ademais, os professores percebem que os estudantes sentem interesse pela vida e obra dessa artista, pois há uma nítida identificação das crianças com as personagens folclóricas que Tarsila pintou. Nascida no meio rural do município Capivari (região de Campinas), no final do século 19, sempre esteve à frente de seu tempo, foi ousada e determinada, tanto que seu estilo ganhou notoriedade na nata intelectual paulistana do começo do século 20.

Afinal, a leveza dos traços e as cores vibrantes empregadas por Tarsila nos convidam a soltar a imaginação. Inclusive, essas técnicas foram inovadoras e ajudaram a fortalecer seus laços com o público; assim, quando se fala em 22, seu nome é unânime, quase um século depois. Tanto que a mostra “Tarsila Popular”, ocorrida no ano passado, no Masp, atraiu uma multidão de fãs. Além disso, suas telas estão espalhadas pelo mundo, sempre com o selo “made in Brasil”, que materializou o projeto oswaldiano de exportar nossas artes.

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Logo, esse afeto dos fãs é notório, porque Tarsila voltou-se para a construção de uma identidade nacional que não fosse piegas ou mero pastiche, mas que tivesse autenticidade e encontrasse ressonância na própria massa, por meio de um diálogo estético de fácil entendimento; enfim, que até os mais humildes reconhecessem, em suas telas, elementos da nossa cultura popular, principalmente aspectos do nosso folclore.

Assim, a artista colocou, de forma singela, o cotidiano brasileiro em suas produções, com o fino propósito de não só resgatar as cores nacionais, mas também promover uma discussão saudável sobre a busca da nossa real brasilidade. Aliás, esse ideário foi defendido com rigor temático pelos modernistas tanto na prosa quanto na poesia e, também, na musicalidade.

Diante da importância do Modernismo, esperamos que as escolas, ao retomarem as aulas presenciais, estabeleçam um projeto pedagógico para marcar o referido centenário. A ocasião será propícia para reencontrarmos nossas raízes, após essa árdua quarentena, naquilo que há de mais verdadeiramente brasileiro, a Semana de Arte Moderna de 22. Assunto da próxima quinzena: o fim do plural metafônico.

João Alvarenga é professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura, produz e apresenta, com Alessandra Santos, o programa Nossa língua sem segredos, que vai ao ar pela Cruzeiro FM (92,3 MHz), às segundas-feiras, das 22h às 24h.

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