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Sofrimento Narcísico

Adriana Alves de Lima

As pessoas de senso comum normalmente associam a palavra narcisismo à vaidade excessiva e ao exibicionismo. Para os estudiosos de Psicologia isso não é correto, e a teoria psicanalítica propõe o narcisismo como um importante conceito para a compreensão da autoestima individual em toda sua complexidade.

Pressupõe o narcisismo primário, que a capacidade do indivíduo vir a gostar de si mesmo, se firma entre a idade de 0 a 4 anos. Já para o narcisismo secundário, a capacidade do indivíduo vir a investir afeto, amor a outras pessoas, se desenvolve entre os 4 e 7 anos. Em outras palavras, no transcorrer entre essas duas etapas de vida, o indivíduo “decide” se ama apenas a si mesmo ou inclui outros na esfera de seu amor.

Em todas as etapas do desenvolvimento da personalidade, a Psicologia propõe uma expectativa de determinadas conquistas. Em relação ao narcisismo não é diferente. Se tudo correr bem, é esperado que a criança, com seus recursos próprios favorecidos pelas condições de seu ambiente social ou familiar, venha a construir uma autoestima bem integrada, estável, sem excessos ou déficits patológicos.

Se, porém, nem tudo correr bem, um dos problemas que o indivíduo terá de enfrentar será o de atravessar toda a existência, de modo prolongado e recorrente, um sofrimento narcísico, caracterizado por angústia profunda, sentimento constante de fragilidade e de inconsistente e vulnerável autoestima. O mais grave dessa situação é que ele produz doenças para si mesmo, de modo inconsciente, na medida em que procura relações com os outros, fadadas ao sofrimento e a sabotagem do seu próprio progresso pessoal e profissional.

Inúmeros problemas, que hoje afetam a saúde mental de muitas pessoas, normalmente têm o sofrimento narcísico como alicerce, e, a partir dele, se desdobra em diversificada sintomatologia, como depressão, dependência por comida, consumo de bebidas e drogas, anorexia, bulimia e outros. Muitos casos de suicídio, atribuídos em sua causa ao “bullying” sofrido, na verdade, quando bem estudados, se constatou o sofrimento narcísico já existente. O indivíduo, pelos motivos já mencionados, não conseguiu metabolizar psiquicamente os ataques levados contra sua autoestima. Vejamos um recorte de observação do cotidiano e sua análise, para melhor compreensão do assunto.

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Se tornou hábito para um casal de namorados, a moça dormir na casa do rapaz às sextas-feiras. Excepcionalmente, num desses dias esperados, o namorado comunicou a ela que não viesse aquela noite. Alegou cansaço por trabalhar bastante e também porque teve uma semana de provas na faculdade; queria dormir até mais tarde no sábado, e se ela ficasse na casa dele teria que acordar cedo para levá-la ao trabalho. Após ouvir as explicações do namorado ela disse: “você não quer me ver?”. Ele respondeu que não era isso, mas que apenas queria dormir um pouco mais para se recuperar do cansaço da semana.

Entretanto, nos dias que sucederam ao acontecimento, a moça só falava do mesmo assunto. Queria saber porque ele não quis vê-la como de costume, no que ela teria falhado com ele, etc. Ela passou a ter uma crise terrível de enxaqueca que durou vários dias a partir daquela “fatídica” sexta-feira.

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Neste caso, a moça sofre narcisicamente, porque não procura compreender racionalmente, os motivos alegados pelo namorado. A posição assumida por ele, de desmarcar o encontro habitual, para atender sua própria demanda, mobiliza na moça, um profundo sentimento de rejeição, que ela expressa na reclamação: “você não quer me ver?”. Por lógica, é absurdo pensar que por querer dormir até mais tarde o namorado a despreza. Entretanto, o psiquismo fragilizado, fixado em conflitos inconscientes, impede que a moça compreenda racionalmente um desejo de autonomia do namorado, sem que se sinta atacada em sua frágil autoestima. Sofre tanto, que sua mente fica aprisionada ao conflito, e girando apenas no encontro desmarcado e sentido como desprezo e rejeição. A tensão psíquica é muito grande e os recursos mentais insuficientes para assimilar a situação, por isso, a emoção transborda para o corpo fazendo-a adoecer com crises de enxaqueca.

Neste estado de sofrimento psíquico, é previsível que a moça comente o fato com as amigas, com a mãe, e com próprio namorado, levando todos a se manifestarem como consultores sentimentais, e dizendo: “você está supervalorizando isso, todo casal precisa de um pouco de espaço, e você deve se preocupar mais com sua vida, seu trabalho”. Esses comentários fazem sentido, mas são inúteis para aliviar o sofrimento e operar modificações no conflito existente, que é inconsciente.

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Numa análise mais científica dos conflitos mentais, se costuma questionar por que a moça fez essa associação: “você não quer me ver?”, no lugar de outra qualquer. A associação não se deu por acaso, e na investigação racional permite compreender os motivos subjacentes ao fato escancarado e, finalmente, oferecer uma ajuda eficaz para o sofrimento em questão.

Adriana Alves de Lima
Psicóloga Clínica e Hospitalar
Professora de Psicologia Racional do NUPEP
Núcleo de Pesquisas Psíquicas
lima_adriana@bol.com.br

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