Socorro! Quero minha anormalidade de volta

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Foto: Pixabay

Um amigo comprou um novo celular e recuperou o diálogo com os filhos e já arrisca o dialeto: Tks; Naun; Jah. Explicação: conversar ficou inútil. Emocionado me mostra um Emoji, aquelas figurinhas com expressão.

Agora é normal. O contato humano mudou. Os celulares marcam encontro e os donos, se quiserem, vão junto. A regra é teclar, olhares fixos nas telinhas sem dizer nada, no final com os dedos roucos de tanto conversar amigos vão embora felizes com o papo. É possível que gerações futuras venham sem boca, com dedos enormes e duas entradas para carregador. Normal.

Não conhecemos mais nossos vizinhos. Fingimos uma cordialidade, mas se pegar fogo na casa dele ou na sua, vocês só saberão se estiverem plugados nas mídias sociais. É normal. Todos querem respeito com a privacidade, mas há postagem de imagens nas redes sociais em ângulos e posições que a nossa boca trava num “Ó” e o queixo despenca. Hoje é normal.

Imigrantes à deriva no mar emocionam, porém emocionado mesmo fica o primeiro sujeito da fila que conseguiu comprar o novo iPhone. Pessoas passam dias em filas, fome, frio, privação para ver uma disputa de game, enquanto procuram empregos on-line, normal. É normal tirar selfies, muitas. Em todo lugar autorizado ou não. E pouco importa se é de alguém se afogando, atropelado ou caindo de um prédio, as selfies vêm primeiro, depois a postagem nas redes sociais, espera-se pelo número de curtidas e se der tempo, socorre-se a vítima. Uma postagem vale mais que muitas vidas. Normal.

O telefone celular foi a melhor máquina fotográfica jamais inventada.

As famílias mudaram para todos os gostos. Normal. Filhos abandonam a faculdade, o trabalho, família para ir em busca dos sonhos deles e pesadelo dos pais quando retornam. Normal. Mulheres estão engravidando mais tarde, na Índia uma mulher Daljinder Kaur, de 72 anos, deu à luz pela primeira vez em 2016. Normal, disse o obstetra ainda suando e com as mãos trêmulas. Recentemente pais americanos foram à Justiça para expulsar o filho de 42 anos que nunca trabalhou e se recusava a sair de casa. É de pensar que se ele não tivesse nascido, a mãe estaria grávida até hoje. Há Pinks; Darks, Punks; Indies, qualquer tribo é boa, família -- pai e mãe -- é que dá problema. É normal.

O trânsito está louco, alguém foi agredido, preços sobem e baixam artificialmente. Normal. Um equipamento falha, o carro novo precisa de recall -- se você sobreviver para fazê-lo --, é normal. A conexão caiu, telefone pifou, estranhas cobranças aparecem nas contas do banco, faltou uma peça, a roupa tem defeito, tudo normal. Outro tiroteio, uma bala perdida e um morto achado, normal. Estresse no trabalho, bagagem extraviada, prazo de validade vencido, música alta, barulho, um crime violento se sobrepõe a outro e os que nunca serão esquecidos são imediatamente esquecidos, um político preso, outro solto, outro preso e assim vai. É normal. Já podemos escolher nosso sexo antes, durante e após nascer ou optar por um vale-troca. Este é um tempo normal demais. Nestes dias de tantas normalidades descubro que estou sentindo falta de ser anormal. E grito: -- Socorro! quero minha anormalidade de volta.

Deve existir uma santa Protetora das Mediocridades para proteger programas de TV, críticos, analistas, personalidades, políticos, especialistas em geral, incluindo orações para o Santo dos Últimos Dias de Exibição.

José Feliciano é redator, escritor de humor suspense, pesquisador de marcas de sabão em pó e médico de generalidades.