Artigos

Segura que vai balançar

Confira o artigo do escritor José Feliciano

As pesquisas mostram um cenário sem cenário cheio de catástrofes futuras. Onde foi que erramos? Seria culpa do vento que desviou aquelas caravelas do descobrimento? Quer dizer que já viemos de um desvio? E a terra à vista foi parcelada em até 72 vezes? As capitanias eram tão hereditárias quanto contagiosas, passando o latifúndio de pais para filhos? No Brasil se plantando dá, não plantando: dão e assim se vai levando. Celeiro do mundo menos pelos grãos mais pelos ratos nós vamos navegando há 500 e tantos anos. Obrigado.

Brasileirar é preciso. De uns tempos para cá a aquarela brasileira ficou monocromática e a ave símbolo passou a ser a Ave Maria. Quando acertamos? A criatividade do malandro brasileiro merece estudo. Pode ser original, mas não é nova, pertence ao mundo, qualquer mundo, até dos espertos. Estamos intoxicados de notícias ruins, informações demais têm nos confundido propositalmente. Notícias chegam depressa, mas quando só se quer ver notícias ruins não é interesse. É vicio. Todos os dias é dia de notícia ruim. O próximo governante vai estar com uma batata quente na mão — ou em local menos nobre — e seu maior desafio vai ser nos tirar do negativismo e da descrença.

É preciso parar com a espetacularização do negativo, da violência. Com a crueldade com grife. Não basta o relato das desgraças, é preciso juntar imagens e sons. Acostumados aos blockbusters do cinema estamos espalhando a má noticia nossa de cada dia com efeitos especiais graças às câmeras, drones, celulares multimídia, anônimos. Estamos banalizando a vida com imagens e brilhos que não têm. A escuridão não tem cor. A dor não refulge para quem é vítima ou família de vítima. You Tube est e Facebook ora pro nobis. Vivemos um tempo de estreias de confrontos sem buscar por entendimentos. Queremos achar culpados. Cada tribo ficou dona da verdade. Dessa vez temos muitos índios e nenhum cacique para apaziguar e o atual picadeiro de candidatos é de dar inveja a espetáculo circense onde os palhaços estão na arquibancada.

O Brasil, segundo as projeções nacionais e estrangeiras, está à beira do abismo. As contas públicas e previdência, se chacoalhar: bum! Quem sair por último — corrijo — que pague a luz. In dólar we trust. Help!

Mas o Brasil sempre esteve à beira do abismo, nunca saiu e também nunca caiu. Já enfrentamos dezenas de abismos na nossa história (1922; 32; 64; 67; 80 e 90) e ainda estamos aqui. O país não acabou, não vai acabar e nem vai cair no abismo. Se cair, nos arrastaremos teimosamente para fora. Pague para ver.

Todo brasileiro é metade por inteiro, parte descendente de outros povos e parte desta bendita terra, então não precisamos de conselhos externos que nos digam quem pode ou não disputar eleições. Ajuda vai bem, fora isso que vão cuidar de suas hortas. Notícia ruim abala, mas não derruba e esperança também consola.

E olha aqui nós outra vez. Vêm aí as eleições. Não nos iludamos, é só a festa acabar e vamos comer um punhado de sal juntos. Casados com esta terra que é nossa, é dos filhos e até dos credores. Boto fé por necessidade a mãe de todas as coragens. Segura que vai balançar.

No Brasil candidato exótico, folclórico ganha eleição, que o digam Jânio Quadros, Enéas e Tiririca. É bom lembrar que um sujeito com cérebro fraco é mais perigoso que um cheio de músculos.

Feliciano é escritor de humor e mistérios. Roteirista de TV e Cinema. Guardador de vagas e médico nas horas de ócio.

Comentários
Assuntos