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Se arde, funciona?

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e escreve para a Agência Estado
Se arde, funciona?
Crédito da foto: Divulgação

Leandro Karnal

Encontro sempre alguns alunos do ensino médio do final da década de 1980. Falamos daquela época, revivemos histórias do colégio e dos outros professores. Quase todos tocam no mesmo ponto: relembram a aula que eu dei sobre Revolução Francesa. O que tinha aquele evento de especial? Eles aprenderam a cantar o hino A Marselhesa, com música e marcha ao vivo.

Transformei um documento histórico em atividade lúdica. Envolvi corpo (canto e marcha) e algo que quebrava o comum. Passados quase 30 anos, o que ficou na memória foi isso. E o conceito de girondinos, a Constituição de 1791 e a fundamental categoria de “Antigo Regime”? Bem, passaram para camadas profundas da memória e o mesmo teria ocorrido no meu cérebro se eu não repetisse, todo ano, aquele conteúdo. Nos alunos, restou a parte lúdica e corporal.

Ao começar a escrever esta crônica, fiz o exercício de me lembrar da aula de história do ensino fundamental, na época, primeiro grau (para os mais velhos, ginásio). Veio de imediato aula com música também: a professora ensinou uma canção que resumia o descobrimento do Brasil. Você encontra a música na internet (http://ongephistoria.blogspot com/2014/03/cantiga-do-descobrimento.html). Se alguém souber os autores, por favor, mande mensagem. Era assim: “O almirante português Pedro Álvares Cabral / No ano de 1500, saiu de Portugal / Com 13 barcos veleiros do rio Tejo pro mar/ Para nas Índias distantes especiarias comprar/ Mas D. Manuel I rei venturoso chamado/ Aconselhou a Cabral/ Mudar de rota um bocado / Para evitar calmarias e para saber também/ Se havia como diziam/ Terras na banda do além/ Navegaram vários dias/ Viram um monte afinal/ Que por ser tempo de Páscoa/ Chamaram Monte Pascoal/ E assim numa quarta-feira/ Dia 22 de abril / Foi descoberto afinal / O nosso amado Brasil”. A letra contém coisas importantes: nomes, datas, o tamanho da esquadra, objetivos (Índias e especiarias), o debate entre descobrimento intencional e acidental, roçado de forma salomônica e deixa indelével o dia da semana do descobrimento: quarta-feira. Na forma ritmada da música, fica para sempre.

Não irei debater o poderoso instrumento da música e do lúdico para ensinar. São autoevidentes. Quero pensar além. O professor que deseja ensinar regras de crase pode se esforçar muito para analisar o que significa juntar um artigo feminino “a” com a preposição (ou com o começo dela) e, feita a junção, assinalamos o fato com um acento grave. Se os alunos entenderem o que de fato constitui a crase, não errarão mais. Se há o artigo feminino, a palavra deve ser feminina. Verbos não possuem artigo, logo, não haverá crase diante de verbo.

As palavras masculinas não permitem crase, mas o bom professor explicará que existe a exceção da palavra “moda” subentendida: “Fez um gol à (moda de) Pelé”. Explicará crases opcionais como diante de pronomes possessivos femininos e nomes próprios femininos. Basicamente, são os princípios gerais. Porém, há recursos mnemônicos. Devo colocar crase diante da frase “Retornei a São Paulo”? Posso ir pelo caminho estrutural das classes e funções gramaticais. Também posso ensinar: “Quando vou a e volto da, então crase há; quando vou a e volto de, crase para quê?” Assim: “Vou a São Paulo e volto de São Paulo”. Aplica-se o recurso: “Crase para quê?”.

O versinho foi-me ensinado há quase 50, antes que eu entendesse de classes gramaticais ou da função sintática. Uso até hoje para resolver as dúvidas, como uso a base da articulação dos dedos para saber se o mês tem 30 ou 31 dias.

Também penso que estalactite diz respeito à parte superior da caverna porque “tite” remete ao “teto”. Para lembrar a geografia dos três países bálticos, lembro que os nomes dos países seguem ordem alfabética de cima para baixo (Estônia, Letônia e Lituânia).

Ensinar não é apenas fornecer boas informações, porém, garantir uma rede que as segure. Jean Piaget (1896-1980) destacou o lúdico no processo de fixação. Ninguém duvida da eficácia. Há um debate sobre o modelo que chamaríamos de “ensino tradicional de cursinho” no qual o lúdico, o caráter histriônico do professor, as musiquinhas, as piadas infames e outras servem de uma imensa rede para fixação dos alunos.

Critica-se, quase sempre, o apelo até o nível do ridículo sem pensar que ele é um efeito colateral de um determinado modelo de vestibular, que pede a um jovem de 17 anos que saiba quase todo o conhecimento humano acumulado em cinco mil anos para uma prova de algumas horas. Hoje, felizmente, há boas exceções no vestibular e cursinhos fora do padrão descrito.

Em resumo: o lúdico funciona. Tudo que envolver corpo e sensibilidade junto ao desafio do conteúdo pode ser eficaz. O principal objetivo do ensino não é distrair ou fazer rir, mas, como queriam os romanos, “atraem-se mais moscas com mel do que com vinagre”. A boa educação envolve o divertido e o difícil, sabe alternar e afirma que é bom ter prazer e que há coisas mais complexas que envolvem esforço e que o “goût de l’effort” francês (o gosto do esforço) é, também, uma grande descoberta. Erra quem enfatiza demais o “no pain, no gain” protestante anglo-saxão (sem dor não existe ganho) e distorce o sentido do aprendizado quem confunde o professor com um artista de stand up. O professor que apenas pensa em conteúdo exato e correto e, não nos recursos para sua fixação, pode estar tão equivocado quanto aquele que confunde a escola com uma plateia em que o ibope é dado por gargalhadas. Na minha infância, o mertiolate tinha de arder como se fosse a picada de mil escorpiões. Hoje, alguns defendem que seja como doce sorvete de frutas do bosque… As duas posturas são problemáticas. É preciso ter esperança no complexo processo de ensinar.

Leandro Karnal é historiador e escreve para a Agência Estado.

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