Saber de cor

Por

Aldo Vannucchi

Tenho um livro cujo autor norte-americano assim se exprime na última página: “Um agradecimento especial à minha esposa... que não hesitou, quando lhe pedi permissão para escrever um livro sobre as armadilhas do amor romântico, enquanto estávamos em nosso cruzeiro de lua de mel pelo Alasca”. Pensar em armadilhas do amor em plena lua de mel só podia mesmo assustar a jovem consorte. Mas ela acabou aprovando e assim nasceu a obra “Os grandes filósofos que fracassaram no amor”.

São apresentados 37, todos esmiuçados nos seus atropelos amorosos: divórcios, adultérios, rixas permanentes, relacionamentos gelados e até um incrível estrangulamento da “amada”, no último capítulo! Dos 37 analisados, só uma mulher, Simone de Beauvoir, filósofa afeita a atividades sexuais extracurriculares. A lista só podia começar por Sócrates, casado com Xantipa, muito mais jovem que ele. Discussão entre os dois eram comuns. Certa feita, ela despejou um balde de água suja sobre a cabeça do marido, que apenas gracejou: “geralmente chove, após o trovão”.

Figuram no elenco santos, como Agostinho, e sedutores, como Sartre. Aquele, quando era só filósofo, aprontou muito, mas depois virou teólogo também e foi canonizado; o outro, feio e baixinho, foi pouco a pouco substituindo sua aura filosófica pela fama de escritor, que lhe atraía um fluxo constante de jovens ávidas pelos seus carinhos.

Quem ganha um triste relevo na obra é Schopenhauer, desastrado no relacionamento com mulheres. Teve três: primeiro, sua empregada; depois, uma cantora de ópera, que não o aguentou, e, por fim, uma adolescente de 17 anos. E faleceu sozinho. Por incrível que pareça, sua prática sexual teve base teórica. Basta lembrar alguns disparates seus, como “há nas mulheres a invencível tendência para a mentira”, “elas são infantis”, “a fidelidade no casamento é artificial para o homem e natural na mulher e, por isso, o adultério da mulher é muito mais imperdoável que o do homem”, mais aquela sua excêntrica barbaridade: “A mulher é um animal de cabelos longos, mas de ideias curtas”.

Pelo visto, trata-se de um livro com lances curiosos, mas de objetivo sério. Visa alertar que, embora filósofo seja, literalmente, amante da sabedoria, a gente se engana se achar que todo filósofo sabe os segredos de como manter o amor conjugal sempre vivo. Uma coisa é saber de cor as bases físicas e metafísicas que sustentam e explicam os processos da razão e da paixão subjacentes às manifestações amorosas do ser humano, outra coisa é saber alimentá-las, no dia-a-dia, ao sol e à chuva das intimidades do lar.

Pascal já dizia, com acerto: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”, mesmo quando se trata da cabeça de um filósofo. Tudo porque saber de cor no sentido de saber de memória difere muito do saber de “cór”, coração em latim. Esse saber de coração é um saber de forma profunda, que passa, necessariamente, pela razão, mas nasce no coração. Por outras palavras, o sucesso na relação conjugal supõe racionalidade e amorosidade. Sem elas, não há diálogo para bom entendimento nem perdão para desentendimentos. Inaceitável, portanto, aquela outra afirmação do machista Schopenhauer: “O casamento é um laço dos corações e não das cabeças”.

Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) -- aldo.vannucchi@uniso.br