Reflexão a gosto
Aldo Vannucchi
Vai chegando ao fim um mês que muitos desgostam. Ligam agosto a desgosto. Terão lá suas razões. Em vez de discuti-las, que se olhe agosto de acordo com o gosto de cada um, como ensina a culinária: “azeite a gosto”. Na verdade, todos os meses têm suas histórias, tanto as vividas por cada pessoa como as construídas pela História. As histórias pessoais respeitam-se. As históricas podem e devem ser analisadas. Fico aqui com estas, a propósito de agosto.
Para bem conhecer esse mês, é preciso enquadrá-lo na história multissecular do nosso calendário. Desde sempre, a humanidade precisou de um sistema oficial do tempo para sobreviver em sociedade, pelo trabalho da terra. Observando os astros, as diferenças do dia e da noite e a variedade das estações, os primeiros humanos aprenderam a determinar as épocas ideais para o plantio e para as colheitas. Posteriormente, foram destacando situações temporais favoráveis ou perigosas, que mereciam um cuidado especial, superior à capacidade deles e aí nasceu o apelo a forças maiores, mediante comemorações religiosas. Criaram-se muitos calendários, mundo afora. O nosso é obra de dois antigos poderes ocidentais: o Império Romano e a Igreja.
Na tradição Romana, a origem dos calendários se confunde com as origens da cidade de Roma (753 a.C.). O primeiro, sem base astronômica, foi substituído por Júlio César, que implantou um calendário solar, alinhado pelas estações do ano. Em sua honra, o sétimo mês ganhou seu nome, julho. Tempos depois, novas mudanças foram feitas pelo Imperador Augusto, que não deixou por menos, batizou o oitavo mês com o seu nome e apareceu agosto.
Com a chegada do Cristianismo a Roma, o calendário romano foi perdendo o perfil pagão e a contagem dos anos passou a ser regulada a partir do nascimento de Cristo, calculado como ocorrido no ano 1 da era cristã. No século XVI, com novas mudanças, o Papa Gregório XIII oficializou esse calendário que usamos hoje, calendário gregoriano. Mas o Papa não conseguiu cristianizar inteiramente o calendário romano: o deus Marte continuou lembrado em março e julho e agosto permaneceram. Julho se justifica, porque esse nome foi dado pelo senado, em homenagem a Júlio César, mas agosto o próprio Augusto inventou, como afirmação de poder.
Sob esse aspecto, agosto nasceu já meio torto. Dá para encará-lo, então, com simpatia, neste agosto que estamos vivendo? Dá. Primeiro, esquecendo o imperador; segundo, valorizando estes últimos dias, marcados pela abertura da campanha eleitoral. São dias de presidenciáveis alardeando todos os poderes para tirar o País da sinuca. Miséria, desemprego, mortalidade infantil, piora dos serviços públicos de educação e saúde, violência, corrupção, desigualdade social, e tantas outras pragas que sonhávamos extintas ou controladas, esses treze candidatos à Presidência da República ou não comentam ou prometem solucionar.
O que cabe a nós, eleitores, é não sermos cúmplices desses discursos melados com muita promessa, pura fraude de lesa-pátria. Ao invés de votar por critérios de antipatia, raiva ou ódio, veja se descobre um candidato com preparo intelectual e equilíbrio emocional e que pense em inclusão social, pela educação e pelo trabalho. Felizmente, temos tempo. Deste agosto de duras incertezas podemos passar a um setembro de boas definições.
Aldo Vannucchi é mestre em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e licenciado em Pedagogia. Autor de diversos livros, foi professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Fafi) e reitor da Universidade de Sorocaba (Uniso) -- aldo.vannucchi@uniso.br