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Por que insistimos em tapar os olhos para grandes empresas?

Jocy Ana Paixão de Sousa comenta desastres causados pelas grandes empresas

Jocy Ana Paixão de Sousa
com Marina Madid Micheletti Caetano

É muito comum algumas grandes empresas, principalmente internacionais, chegarem no Brasil e acharem que podem fazer o que bem entender. Apoiadas por incentivos recebidos de governos se tornam destemidas e isso se reflete em várias consequências, sobretudo na incapacidade do governo em puni-las corretamente quando provocam danos ambientais. Quantos desastres ambientais já ocorreram no Brasil e as empresas responsáveis sequer cumpriram com o mínimo, que é dar suporte às populações diretamente afetadas e recuperar os danos ambientais?

É justamente nos desastres que queríamos chegar. Em fevereiro deste ano, ocorreu na cidade de Barcarena, Estado do Pará, o vazamento de rejeitos de bauxita provenientes da mineradora norueguesa Hydro Alunorte. E muitos nem ouviram falar.

A bauxita é um minério de cor avermelhada e a partir dela é produzida a alumina (óxido de alumínio) e de onde finalmente extrai-se o alumínio. Porém, para a produção de alumina são gerados rejeitos na forma líquida que são armazenados em bacias, ou seja, enormes tanques, sem nenhuma perspectiva de utilização.

O Brasil encontra-se na terceira posição em produção de bauxita, produzindo cerca de 39 milhões de toneladas anuais, perdendo apenas para Austrália e China com aproximadamente 83,5 e 68 milhões de toneladas, respectivamente. De acordo com a Associação Brasileira de Alumínio (Abal), o Estado do Pará é um dos maiores produtores de bauxita destinados ao uso metálico. Atualmente sua produção corresponde a 91%.

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Logo, é fácil prever porque existem tantas mineradoras nesse Estado, uma delas é a citada anteriormente, a Hydro Alunorte, que atua há mais de 20 anos. Esta era a responsável pela barragem rompida em Barcarena e que contaminou principalmente os rios e igarapés do entorno, como os rios Murucupi e Pará. Porém, a empresa, a princípio, negou os fatos delongando assim as providências necessárias para tentar minimizar os danos.

Houve muitas mortes de peixes, cerca de 400 famílias ficaram sem água potável e parte da população ribeirinha apresentou sérios problemas de saúde. O laudo realizado pelo Instituto Evandro Chagas (IEC) confirmou o vazamento e que a água apresentava alto nível de metais pesados, como o chumbo (Pb). Vale ressaltar que algumas pesquisas apontam a relação entre o chumbo com incidência do câncer.

O que foi mais agravante nesse caso foi que depois descobriu-se dutos clandestinos para eliminar os resíduos de bauxita e que também não havia sistema de alarme caso viesse acorrer um rompimento da barragem. Agora, para e pensa leitor: há quanto tempo a população vem sofrendo com a negligência e sendo contaminada? Tendo seu direito negado a uma água de qualidade? Pois é, justamente quem paga o pato é povo diante de tanta negligência.

E o que foi feito por parte do poder público? Solicitou a suspensão de 50% das atividades da mineradora, determinando que funcionasse apenas com uma das duas bacias de rejeitos, porém não deixou claro a exigência de uma compensação ambiental.

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Em outubro deste ano, a empresa informou que iria suspender suas atividades e o principal motivo era não conseguir operar apenas com uma bacia de rejeitos. O advogado de defesa das comunidades impactadas disse que isso demonstra a incapacidade da empresa em operar na legalidade.

Já está na hora do Brasil deixar de ser terra sem lei. Não é porque vai ser viável economicamente que algumas empresas podem fazer o querem e que o governo vai fechar os olhos quando ocorrerem os impactos ambientais. Tem sim que melhorar a fiscalização e, se necessário, punir, porque senão as consequências para o meio ambiente e para a população podem ser irreversíveis e quem arca com os ônus do descaso somos todos nós.

Jocy Ana Paixão de Sousa é engenheira florestal e doutoranda em Ciências Ambientais pela Unesp-Sorocaba (Jocy.sousa@unesp.br). Marina Madid Micheletti Caetano é engenheira ambiental e mestranda em Ciências Ambientais pela Unesp-Sorocaba (marina_madid@yahoo.com.br).

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